02 de Dezembro de 2011, 14:37

Pescadores deverão ter alta ainda hoje

Tripulantes estavam com "frio, medo e pânico"

Chegada dos tripulantes da embarcação ao Hospital de Santo André, em Leiria Chegada dos tripulantes da embarcação ao Hospital de Santo André, em Leiria Imagem: LUSA/ PAULO CUNHA

Os sobreviventes da embarcação "Virgem do Sameiro" estavam “com frio, medo e pânico” quando foram encontrados, descreveu hoje à agência Lusa um recuperador salvador da Força Aérea que participou nas operações de resgate.

Luís Silva explicou que esta era uma situação esperada e normal, já que os tripulantes se encontravam numa “fase de desespero”.

Um deles, após três dias perdido em alto mar, teve que ser amarrado pela própria tripulação porque manifestava comportamentos violentos, acrescentou.

Em declarações à Lusa, o piloto do helicóptero da Força Aérea utilizado no resgate e que normalmente está estacionado na base aérea do Montijo, Ricardo Amaral, disse que o avistamento foi feito quando realizava uma fiscalização de rotina relacionada com a atividade piscatória.

Ricardo Amaral sublinhou que a maior dificuldade na operação foi o “mar agitado” de hoje.

Os seis tripulantes da embarcação de pesca "Virgem do Sameiro" já se encontram no Hospital de Santo André, em Leiria, depois de terem sido encontrados com vida a 12 milhas, cerca de 22 quilómetros, a noroeste do cabo Mondego.

O diretor clínico daquela unidade hospitalar anunciou ao início da tarde que a tripulação deverá receber alta hospitar ainda hoje.

O barco, registado na Póvoa de Varzim, estava desaparecido desde terça-feira e tinha reportado pela última vez a sua localização quando se encontrava a cerca de 16 milhas a oeste da Figueira da Foz.

"Foi milagre", dizem familiares

Para os familiares dos pescadores das Caxinas resgatados foi “um milagre” terem sido encontrados com vida.

Esta era a justificação mais ouvida, ao início da tarde de hoje, pela população das Caxinas, que não quis deixar de se despedir dos familiares das vítimas deste acidente que viajaram até Leiria, num autocarro disponibilizado pela Câmara Municipal de Vila do Conde, para se encontrarem com os pescadores e trazê-los de regresso a casa.

A maior comunidade piscatória do país, as Caxinas, viveu hoje sentimentos antagónicos, porque o luto e a tristeza deram lugar a um ambiente de grande festa.

Da tripulação do Virgem do Sameiro fazia parte o mestre José Manuel Coentrão, de 46 anos, Prudenciano Pereira, de 48, António Maravalhas, de 44, e Manuel Navegante, de 50 anos, todos das Caxinas.

A bordo seguia ainda João Coentrão, de Aver-o-mar, na Póvoa de Varzim, e ainda um cidadão de 30 anos, nacionalidade ucraniana, residente na Figueira da Foz.

Poucos minutos antes da partida para Leiria, Ana João, filha de António Maravalhas, não conseguia esconder o contentamento de, dentro de poucas horas, "poder abraçar o pai”.

“Porque esta manhã pensei que nunca mais o ia ver”, disse à Lusa.

Já o pai deste pescador também não conseguia conter as lágrimas e ia dizendo que sempre manteve a “confiança que tudo ia acabar bem”.

Dizem que “as Caxinas estão condenadas à morte, mas isto foi um verdadeiro milagre”, frisou ainda entre sorrisos e lágrimas.
Também Marta Ferreira, sobrinha de Prudenciano Pereira, manteve a esperança que o tio “ia chegar a Vila do Conde são e salvo”.

Menos otimista estava a mulher deste pescador que passou as últimas horas a “rezar” para que o marido fosse encontrado vivo, mas a expetativa era “pouca ou nenhuma”.

Aliás, o luto já era bem visível ao início da manhã de hoje em algumas casas dos pescadores resgatados.
A notícia de que haviam sido encontrados sãos e salvos chegou às Caxinas pouco passava das 11:00 e foi dada pelo presidente da Junta de Freguesia de Vila do Conde.

José Maria Postiga recebeu um telefonema e comunicou de imediato a alguns dos familiares que “saíram para a rua a gritar. Foi uma festa muito grande”, contou o autarca, dizendo também que este episódio “foi um verdadeiro milagre”.

Depois de fazerem exames médicos, os pescadores serão alimentados e devem regressar “ao final da tarde de hoje a casa”, garantiu à Lusa o presidente da Câmara Municipal de Vila do Conde que fez questão de acompanhar a partida do autocarro onde viajam os familiares dos pescadores.

“Esta comunidade tem sido sempre fustigada pela tragédia, cheguei a pensar que esta seria mais uma”, disse Mário Almeida.
A maior comunidade piscatória do país, as Caxinas, viveu hoje sentimentos antagónicos, porque o luto e a tristeza deram lugar a um ambiente de grande festa.

Alguém dizia hoje de manhã que “o mar estava à espera de comer, mas deu-se um milagre e não comeu”, porque, pelo menos desta vez, os caxineiros foram poupados de mais uma tragédia.


Este artigo foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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