Chegamos ao Dixo’s, subimos as escadas íngremes que nos dão as boas vindas em várias línguas e entramos numa casa portuguesa. Com certeza. Objetos típicos, velharias, galos de Barcelos, elétricos, o Fado, o São João. Na receção, Joana Dixo, co-proprietária do Dixo’s Oporto Hostel, na rua Mouzinho da Silveira, pergunta a uma hóspede se está tudo ok. No quadro de giz atrás pode ler-se "Torna-te um nativo. Diverte-te connosco e disfruta a cidade".
Joana garante que não teme a concorrência crescente dos últimos anos. "O mercado mudou imenso. Houve um boom a partir de 2010. Foi tudo muito rápido. Mas seis hostels já estão à venda. É de loucos, em vez de manterem a qualidade, preferem baixar os preços", conta.
Na altura em que os hostels começaram a surgir como cogumelos na cidade, o Dixo’s teve de baixar um pouco os preços para fazer face à concorrência. Mas hoje, Joana admite que ser um pouco mais caro compensa. "Para termos um serviço de qualidade, temos de ter um preço razoável que nos permita pagar ordenados ao staff e manter o serviço o melhor possível". "Nós vamos estar sempre bem", remata a co-proprietária.
O Dixo’s vive de público essencialmente estrangeiro, mas na época baixa as visitas de portugueses costumam ser frequentes. Em época alta, a média de ocupantes mensais chega às centenas. "O nosso cliente é o que os voos low-cost trazem", diz Joana. Este número torna-se ainda mais relevante quando percebemos que o investimento na comunicação é quase nulo. "Vendemos bilhetes na internet, no Facebook e depois temos o passa a palavra".
"É preciso limpar, mesmo!"
A fórmula do sucesso: qualidade dos serviços e da limpeza. A tabuleta dos prémios ganhos recentemente é prova disso mesmo: "Hostel mais limpo do mundo", eleito pelos utilizadores do portal Hostelworld, e o "3º melhor pequeno hostel do mundo", atribuído pela Hoscars.
"O prémio ajuda a fazer a distinção mas o que é importante é o trabalho feito diariamente", conta a co-proprietária. Esse trabalho diário é assegurado essencialmente por cinco pessoas. Os irmãos e proprietários, Joana e Pedro, também estão no negócio a tempo inteiro. Rececionam os hóspedes e tratam das burocracias.
Andreia e Manuela ocupam-se das limpezas diárias. Afirmam que não há segredos para manter o espaço sempre impecável. Por um lado, entra a "colaboração" e por outro "é preciso limpar, mesmo!", sublinha Andreia. "Sentimo-nos orgulhosas com o prémio. Somos duas para cinco andares, é muito complicado mas funciona muito bem porque colaboramos muito", refere Manuela ao SAPO enquanto dá uns retoques na cozinha comunitária.
Andreia, chefe das operações de limpeza, passa em revista os espaços várias vezes ao dia. "Arrumamos os quartos, fazemos uma limpeza geral à tarde. Durante a manhã as casas de banho são constantemente vistas", diz. Ao todo são oito quartos, uma cozinha, sala de refeições, uma sala comum e outra de computadores, distribuídos por cinco andares. E o "famoso" terraço. "Tem uma vista fora de série", comenta Joana. Pudemos comprová-lo mais adiante. Situado no último piso do hostel, é um postal da cidade do Porto. Estão lá o rio Douro, a ponte D. Luís, a Torre dos Clérigos, a Sé, o Mercado Ferreira Borges, o Palácio da Bolsa, para não falar do casario típico da cidade.
Uma conversa, duas eslovenas e uma australiana
Ao voltarmos para a o rés-do-chão, ouvimos música na receção. Katarina, uma eslovena, anima o ambiente com uma guitarra. A sua amiga Mojca, com quem viaja, e Lisa, uma australiana, ouvem-na atentamente enquanto trauteiam Red Hot Chili Peppers e Oasis. A conversa com o SAPO Notícias surge naturalmente. Mojca pergunta se somos jornalistas. "Logo vi, estás de bloco na mão, só podia", diz. "Também sou jornalista", conta.
Neste momento está de férias com Katarina. Antes do Porto passaram por Lisboa, Coimbra, Aveiro. Depois da Invicta seguem para Faro. "Lisboa é muito grande, o Porto é menos turístico e mais barato", conta Katarina. "As pessoas são mais acolhedoras e genuínas", completa Mojca. Katarina pousa a viola e senta-se connosco no sofá. O assunto torna-se mais sério.
"Na Eslovénia também está tudo muito mal, a seguir a vocês e à Espanha somos nós. E os jovens eslovenos também estão numa situação parecida com a vossa, não há emprego para todos e pagam muito mal", diz Mojca que trabalha atualmente no maior jornal diário esloveno, Delo (trabalho, em português). No outro cadeirão, Lisa tenta perceber uma realidade que desconhece para já na Austrália. Conta-nos que viaja sozinha há cinco meses. Tirou o curso de Farmácia. Trabalhou para juntar algum dinheiro e fez-se à estrada.
"Estive nos EUA, Inglaterra, Irlanda e vim parar a Portugal por acaso", conta. A escolha do Dixo’s também foi um mero acaso. "Fui ao site Hostelworld e escolhi o hotel pelos reviews. O Dixo’s aparecia em primeiro lugar e ainda por cima era perto da estação de comboio. "Estou a adorar, é muito acolhedor", conta Lisa. Apaixonada por viajar diz que só voltará para casa quando o dinheiro acabar. "Pelos meus cálculos, lá para o final de julho. Ainda devo voltar à Irlanda e depois talvez ter com uns amigos à Alemanha", diz.
As três hóspedes juntam-se a outros e ao guia turístico que vai realizar um passeio a pé pela cidade – um dos serviços grátis do hostel. Não sem antes quererem saber porque lá estamos. "É a propósito do Dia do Turista, na sexta-feira". "Oh, a sério? Temos de festejar, Mojca", diz efusivamente Katarina. Todas ficarão pelo Porto apenas por mais uns dias. Outras virão. Na sala comum do Dixo’s "é só histórias", remata Joana ao despedir-se de nós. "É sempre assim, está sempre gente a entrar e a sair".
Veja mais:
+ O que é que os turistas sabem sobre o Porto?
+ Quem são os turistas que visitam o Porto?