20 de Setembro de 2012, 09:32

Educação à chinesa: o pulso firme como receita para o sucesso

Amy Chua, professora de direito na Universidade de Yale, obrigou as filhas a ter nota máxima a todas as disciplinas. Amy Chua, professora de direito na Universidade de Yale, obrigou as filhas a ter nota máxima a todas as disciplinas. Imagem: AFP PHOTO / Prakash SINGH

Na China, a formação e sucesso escolar valem ouro. É não só uma forma de ascensão social, como o reflexo de uma boa educação e elevados valores morais. Os pais têm expetativas “planetárias” em relação aos filhos, o que muitas vezes se traduz numa pressão para estudar que nos países ocidentais muitos considerariam exagerada.

O livro de Amy Chua é um retrato disso mesmo. A autora, uma professora de Direito na Universidade de Yale, nos EUA, decidiu educar as filhas tal como tinha sido educada: com um grau de exigência absolutamente maníaco. Obrigou a mais velha a estudar piano, a mais nova a estudar violino. Quatro horas por dia e o dobro aos fins de semana. Proibiu a televisão, os jogos de computador, as dormidas fora de casa, as peças da escola. E impôs que tivessem nota máxima em todas as disciplinas.

Por cá, Irene Rodrigues, professora do Instituto Superior Ciências Sociais e Políticas, explicou ao SAPO Notícias que as crianças chinesas “de facto não têm descanso”, sendo que muitas delas moram nas escolas ou em casa de professores e vêm os pais uma vez por mês, ou, duas a três vezes num ano.

Estas crianças estudam também ao fim de semana e as atividades extra curriculares servem para ajudar a que tenham sucesso nas aulas ou são, de alguma forma, prestigiantes. Em vez de natação ou judo, opta-se pelo ensino da matemática avançada, do piano ou violino.

“Um pai chinês não anseia que o seu filho estude na universidade de Pequim, ele vai estar a estar a sonhar com Harvard, se tiver possibilidades para isso. A ambição é planetária”, explica a professora, acrescentando que, por tradição, a educação dos filhos honra a família.

Se para muitos pais ocidentais seria impossível ver os seus filhos duas vezes por ano, Irene Rodrigues explica que a realidade chinesa é muito diferente daquela a que estamos habituados. O afastamento entre pais e filhos, e muitas vezes entre os próprios elementos do casal (que podem inclusivamente viver em cidades diferentes), é visto “com alguma naturalidade”.

"Não é uma situação de que as pessoas gostem, mas acabam por achar normal tendo em conta o que é esperado delas: que consigam fazer dinheiro e ser bem sucedidas”, diz a professora.

Falta de amor? Não. Quando os pais chineses são confrontados com a possibilidade de estarem a pressionar demasiado os seus filhos justificam as suas ações dizendo que se não o fizerem “não estão a ser bons pais, uma vez que não estão a fazer o que está ao seu alcance para que os filhos sejam o melhor que conseguem ser”.

Naturalmente, a China é um pais de contrastes e, por isso mesmo, este é o retrato da educação de crianças da classe média alta, alerta Irene Rodrigues.
Ainda não é possível saber quais as consequências desta educação rígida, mas algumas das pessoas, entrevistadas pela professora, disseram sentir uma “grande pressão para retribuírem aos pais os sacrifícios que eles fizeram e uma incapacidade de se relacionarem socialmente porque não tem essa aprendizagem”.

 

SAPO

Este artigo foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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