16 de Outubro de 2012, 08:22

Dia Mundial da Alimentação

Como comem os portugueses?

Imagem mostra a roda ideal dos alimentos e a balança alimentar dos portugueses, em 2008, ano em que foram recolhidos os últimos dados Imagem mostra a roda ideal dos alimentos e a balança alimentar dos portugueses, em 2008, ano em que foram recolhidos os últimos dados Imagem: DR

As leis da economia mostram que quando há menos dinheiro no bolso, a tendência é para se gastar menos. E os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) comprovam-no. A despesa anual média dos portugueses com a alimentação entre março de 2010 e março de 2011 representou 13,3% do salário anual médio, uma descida de 5,4% face a 2000.

"Este fenómeno poderá explicar algumas alterações no padrão alimentar português, por conta da crise económica", explica Luís Matos, vice-presidente da Associação Portuguesa de Nutricionistas.

"Paralelamente, assistiu-se a um aumento de quase 10% nas despesas com a habitação, água, eletricidade, gás e outros combustíveis", recorda o especialista, citando o estudo do INE sobre Orçamentos Familiares.

A análise do INE mostra que a dieta nacional não se faz apenas de preferências. Existem fatores como o preço que inferem diretamente nas decisões. A falta de matéria-prima na indústria transformadora de laticínios na União Europeia em 2007 e 2008, por exemplo, fez aumentar o preço da produção de leite na ordem dos 11 a 15%, o que levou ao aumento do preço dos produtos e à consequente retração no consumo de queijo e iogurtes – menos 2% e 4%, respetivamente.

Demasiadas calorias

Os portugueses compram uma média de 3883 kcal diárias, quando o valor médio de consumo recomendado para um adulto é de 2000 a 2500. “Um número alto”, nas palavras da médica endocrinologista Isabel do Carmo, que sublinha que se trata da aproximação dos valores consumidos em Portugal com os ingeridos nos Estados Unidos.

“Mas o facto de se consumirem muitas calorias não significa qualidade nutricional, nem sequer suficiência. Trata-se de um média”, salvaguarda a  presidente do conselho científico da Plataforma contra a Obesidade.

O estudo publicado pelo INE em 2010 sobre a Balança Alimentar dos Portugueses é o mais recente e pinta um cenário negro da alimentação em Portugal. Compara os hábitos alimentares do novo século com os da década de 90 e conclui que a “dieta portuguesa tem-se vindo progressivamente a afastar dos princípios da variedade, equilíbrio e moderação.”

“Não sei se em 1990 era mais equilibrada, porque havia classes sociais que não tinham acesso à carne, ao leite e à fruta. Pode ser que a evolução para 2010 signifique apenas que esses grupos passaram a ter acesso e a média subiu”, especula Isabel do Carmo.

Curiosidade Cada vez mais os cereais substituem as raízes e os tubérculos na dieta nacional. Portugal é o maior consumidor de arroz da Europa com uma capitação de 17,3kg/ano.

O estudo dá conta de uma distorção gradual da roda de alimentos dos portugueses, especialmente na última década. A análise adianta que a carne de suíno continua a liderar a tabela nacional do consumo de carnes, representando 38% desse total, ainda que a tendência seja para o crescimento do consumo das carnes brancas, que representa 33% da disponibilidade de carnes.

O mesmo estudo do INE adianta que 51% da população tem excesso de peso. “Pelo menos metade da população adulta portuguesa ingere mais calorias do que aquelas que gasta”, garante Isabel do Carmo, que salienta que o cenário europeu não é diferente. “Grande oferta e publicidade de alimentos hipercalóricos, pobres do ponto de vista nutricional, mas mais acessíveis economicamente” é uma das razões que justifica as escolhas, tal como o sedentarismo das áreas urbanas.

A Direção-geral de Saúde conclui que a população rural tende a ter uma alimentação mais saudável do que a urbana, por causa dos horários de trabalho rígidos, da escassez de tempo e da oferta alargada de "comidas da moda". 

A longo prazo, os maus hábitos alimentares terão consequências na saúde. "As pessoas ficam mais propensas a desencadear doenças crónico-degenerativas, as mais frequentes causas de doença cardiovascular, como a diabetes mellitus, hipertensão arterial, dislipidemia, obesidade e cancro", alerta Luís Matos.

Em Portugal, as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte, cerca de 32%, de acordo com as Estatísticas da Saúde do INE.

SAPO

Este artigo foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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