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16 de Outubro de 2012, 10:28

Dia Mundial da Alimentação

À conversa com o nutricionista Nuno Borges

SAPO Notícias: Bom dia, vamos dar início ao fórum em direto com o nutricionista Nuno Borges sobre os hábitos alimentares dos portugueses. Deixamos uma primeira pergunta, nesta altura de crise, os portugueses podem alterar os hábitos de consumo de certos alimentos. Isso pode ser positivo ou negativo?

Nuno Borges: Tendo em vista os recentes dados das balanças alimentares, onde se mostra uma disponibilidade de alimentos algo distorcida do padrão saudável, podemos encarar esta súbita crise como tendo alguns aspetos positivos. Sendo muito recente, não temos dados fidedignos sobre o consumo real dos portugueses neste últimos tempos, mas não é difícil imaginar que o consumo fora de casa tenha diminuído e, por consequência, o número de refeições confecionadas em casa tenha aumentado. Regra geral, as refeições que preparamos nas nossas casas apresentam um melhor perfil nutricional, sobretudo se compararmos com estabelecimentos de "fast-food".


Nuno Nunes: A importância das cooperativas agricolas para ajudar a alimentar as pessoas e combater a fome é o tema/lema do dia mundial alimentação 2012. No cenário de crise em que vivemos actualmente em Portugal julgo que uma solução pode ser voltar ao cultivo das terras! Gostaria que comentasse a aplicação do lema 2012 da FAO/ONU à luz da realidade nacional e europeia.

Nuno Borges: O tema da FAO/ONU para o presente ano assume, de facto, uma pertinência especial no contexto português e europeu. Infelizmente, sabemos que as políticas para a agricultura nas últimas décadas acabaram por determinar hoje a existência de uma produção baixa, pouco diversificada e desconexa de um objetivo global para o país. Mesmo assim, por razões estritamente económicas e sociais, mas também nutricionais (mais hortícolas, mais leguminosas e mais frutas é sempre um bom sinal!), acredito que um investimento numa agricultura moderna, eficiente e bem gerida pode representar uma solução para alguns dos problemas com que hoje nos defrontamos. 


Paula C.: Como disseram e muito bem em tempos de crise também é possível fazer uma alimentação equilibrada sem gastar muito dinheiro. Gostaria que informasse quais os tipos de alimentos saudáveis que podemos conjugar numa refeição? Ou então quais os alimentos saudáveis e acessíveis em termos de preços.

Nuno Borges: A conjugação possível dos vários alimentos disponíveis, mesmo considerando apenas os mais baratos, é imensa! Regra geral, devemos seguir, ao longo do dia, as proporções referidas na roda dos alimentos, garantindo deste modo equilíbrio e adequação constantes. Existem algumas iniciativas interessantes destinadas a promover o consumo de refeições simultaneamente saudáveis e acessíveis, sendo um dos casos o do projeto Comer Bem é + Barato, da Fundação Calouste Gulbenkian e da Associação Portuguesa dos Nutricionistas, entre outros parceiros. Pode consultar algumas receitas aqui.

 

Anita: Muitas vezes ouço recomendar o consumo de carne branca em vez de carnes vermelhas, mas pelo que tenho lido sobre os métodos de pecuária os frangos e galinhas parecem-me ser criados com muito mais hormonas e antibióticos. Não acaba por ser uma carne menos saudável?

Nuno Borges: Sob o ponto de vista nutricional, a carne de aves, designada habitualmente por carne branca, é mais saudável que a carne vermelha (porco, vaca, cabra ou ovelha, por exemplo). Existe legislação que limita o uso de substâncias como as que referiu na criação de aves, pelo que, caso seja cumprida, os limites de toxicidade não serão atingidos. De qualquer modo, uma forma excelente de minorar esse problema é não consumir a pele das aves, dado que essas substâncias acumulam-se preferencialmente na gordura desse órgão.


Anita: Quais são as melhores (e mais baratas) alternativas ao consumo de carne e peixe? Feijão, grão, lentilhas, podem substituir pelo menos duas ou três doses de carne ou peixe por semana sem se perder em termos de saúde?

Nuno Borges: Essas alternativas que refere são perfeitamente possíveis, apresentando mesmo vantagens em termos de custo e de alguns parâmetros nutricionais. Parece também razoável, como propõe, não substituir toda a carne e, sobretudo, todo o peixe. É mesmo recomendável fazer, em média, duas refeições por semana com peixe gordo (salmão, sardinha, cavala, por exemplo), pois fornecem um tipo de gordura que dificilmente encontramos noutros alimentos.


Alzira Fernandes: Muitas vezes não tenho dinheiro para comprar peixe fresco e opto por pescado congelado. A longo prazo isso pode ter efeitos nefastos na minha saúde?

Nuno Borges: Se o peixe for adequadamente congelado, de preferência em alto mar, não existe qualquer prejuízo nutricional de consumir peixe congelado. De igual modo, as conservas de peixe são uma boa alternativa ao produto fresco e com um custo significativamente menor.


SAPO Notícias: Estamos a chegar na reta final deste fórum. Só poderemos responder a mais uma ou duas questões.


António Almeida: Gostaria de saber onde podemos obter informação acerca dos rótulos dos alimentos? É que quando compramos os alimentos, as embalagens têm tanta informação acerca do seu conteúdo, mas praticamente toda é inútil, pois não sabemos o que quer dizer. Onde é que posso encontrar informação sobre os E(s) dos produtos?

Nuno Borges: A informação disponibilizada nos rótulos é, de facto, muitas vezes extensa e, por consequência, confusa. Como regra geral, diria que devemos olhar, sobretudo, para o valor energético (as "calorias"), para o teor de gordura saturada, para o de açúcar e para o de sal, e verificar se são ou não excessivos para a dose que estamos a planear ingerir. Algumas marcas optaram por colocar um "semáforo" que avisa, com o conhecido código de cores, se estes valores são ou não excessivos. Quanto aos aditivos alimentares, vulgo E's, temos legislação comunitária que apenas permite o seu uso em quantidades seguras para a saúde, pelo que não me parece que devam constituir preocupação de maior ao ler um rótulo.

 

Pedro Gouveia: Devemos beber água à refeição ou é preferível que a bebamos fora da refeição? Dizem que a água durante a refeição dilata a barriga...

Nuno Borges: A água deve ser a nossa bebida preferencial. É indiferente se a bebemos dentro ou fora das refeições e devemos ativamente combater esse mito de que não podemos acompanhar as refeições com água! Pelo contrário, o consumo à refeição de bebidas como os refrigerantes, é bastante desaconselhável. A água não tem valor energético, pelo que de forma nenhuma pode contribuir para o aumento "da barriga".


SAPO Notícias: Chegamos ao fim deste fórum. Agradecemos a presença do nutricionista Nuno Borges e a participação dos nossos utilizadores. Acompanhe durante a semana mais conteúdos no âmbito do Dia Mundial da Alimentação.


SAPO

Este artigo foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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