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20 de Dezembro de 2007, 20:22

Casa Pia: Ferro Rodrigues diz que só acreditou que seu nome estava envolvido depois de falar... (ACTUALIZADA)

Eduardo Ferro Rodrigues, que hoje testemunhou no julgamento do caso Casa Pia, arrolado pelos arguidos Carlos Cruz e Carlos Silvino ("Bibi"), disse que, depois do escândalo ter eclodido, em Novembro de 2002, várias pessoas lhe contaram - inclusive a mulher - que o seu nome estava a ser "atirado" para a opinião pública, mas que achou a "coisa absurda".

"O momento em que fiquei verdadeiramente espantado e tomei medidas de protecção dos dirigentes socialistas foi quando Saldanha Sanches [marido da procuradora do Ministério Público Maria José Morgado] foi à sede do PS dizer que o nome de Paulo Pedroso e o meu tinham sido relatados no processo", afirmou o actual embaixador de Portugal na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico).

Questionado pelo advogado de Carlos Silvino, José Maria Martins, sobre o motivo pelo qual só passou a acreditar depois de conversar com Saldanha Sanches, o ex-secretário-geral socialista afirmou que o fiscalista se "movimenta bem nos meios fiscais e judiciais" e que, por isso, "a informação seria fidedigna".

Instado por que, na qualidade de líder do PS e candidato a primeiro-ministro, não avisou Saldanha Sanches de que estava a violar o Segredo de Justiça, Ferro Rodrigues afirmou que, "a partir do momento que teve conhecimento de acusações a pessoas inocentes", a sua preocupação foi de "informar da gravidade da operação que estava em causa".

Ferro Rodrigues justificou, assim, os vários telefonemas [que constam das escutas telefónicas no processo] para altos dirigentes socialistas aquando do escândalo e da prisão do deputado socialista Paulo Pedroso, a carta enviada ao então Procurador-Geral da República, a relatar as informações e a pedir acesso aos depoimentos dos que o acusavam, e os contactos com o então Presidente da República Jorge Sampaio.

Ferro Rodrigues disse que foi uma "atitude de autodefesa" e garantiu que nunca tentou pressionar os meios judiciais ou a magistratura.

Em tribunal, o ex-líder socialista avançou como explicações do seu envolvimento e de Paulo Pedroso, bem como de outros nomes do PS, no processo uma lógica judicial e outra política.

"Não quero entrar numa lógica de especulações, mas poderá haver uma explicação judicial de alguém que estivesse preso ou pudesse vir a ser preso querer instrumentalizar a investigação e a hipótese política, para decapitar a liderança política do maior partido da oposição, considerada demasiado à esquerda", afirmou.

Ferro Rodrigues, que viu o seu nome envolvido no escândalo de pedofilia por duas alegadas vítimas - uma dos quais assumido braço direito do principal arguido, Carlos Silvino da Silva ("Bibi") -, como estando envolvido em abusos sexuais ou presente em casas onde estes aconteceram, afirmou hoje em tribunal que nunca esteve nem dormiu nessas residências da instituição.

O antigo secretário-geral socialista negou, igualmente, que tenha alguma vez estado, sozinho ou acompanhado por outros dirigentes socialistas, em casas com alunos da instituição, na vivenda de Elvas (pertença da arguida Gertrudes Nunes) ou no imóvel da Casa Pia em Colares, onde os jovens terão dito que o viram e onde alegam terem sido abusados.

Apesar destas denúncias dos jovens, Ferro Rodrigues nunca foi indiciado ou constituído como arguido no processo Casa Pia, situação que sublinhou hoje em tribunal enquanto prestou depoimento como testemunha.

Ferro Rodrigues disse que, dos sete arguidos, apenas conhecia Carlos Cruz, por ter estado "quatro ou cinco vezes" com ele em cerimónias, admitiu que terá estado com o ex-provedor adjunto Manuel Abrantes enquanto desempenhou funções de ministro do Trabalho e da Solidariedade, mas disse não conhecer qualquer dos outros arguidos.

À saída do Tribunal do Monsanto, Ferro Rodrigues disse que "o processo só culminará bem, e todos os processos que envolvem pedofilia em Portugal, quando os culpados forem castigados e os inocentes absolvidos, mas também quando os caluniadores forem perseguidos".

"Não é admissível num Estado de Direito Democrático o que se passou em relação ao líder do PS há cinco anos atrás. Eu, cinco anos depois, continuo com a mesma determinação", disse, sublinhando que se sentiu bem com a ida a tribunal, porque, "na primeira vez nos últimos anos, teve ocasião de no sítio certo falar deste tema".

Sobre o seu depoimento em tribunal, durante o qual o advogado José Maria Martins foi duro nas perguntas e alegadamente insinuou uma pressão dos dirigentes socialistas sobre a magistratura para abafar o caso, o que levou a juíza presidente, Ana Peres, a intervir, Ferro afirmou que "o tribunal fez o que lhe competia".

"O que eu acho absurdo é que, num país democrático, possa haver um interrogatório feito por um advogado durante muito tempo sobre escutas entre pessoas que não foram nunca constituídas arguidas neste processo. Escutas entre várias pessoas do PS, mas como quem não deve não teme, não houve nenhuma pergunta que ficassem sem resposta", disse também.

Ferro Rodrigues disse que hoje está mais indignado com o caso do que há cinco anos atrás, porque ao fim deste tempo "já se deveria ter feito um esforço de investigação para saber como é que foi possível que um dirigente socialista tenha estado preso durante meses e que outro tivesse visto o seu nome na lama em 2003".

Em sua opinião, o actual Procurador-Geral da República tem a responsabilidade em conseguir "que se saiba tudo, mas mesmo tudo, sobre o processo Casa Pia. Quem são os culpados, quem são os inocentes e quem são aos caluniadores".

Também à saída do tribunal, o advogado José Maria Martins disse que as respostas do ex-dirigente socialista foram "as previsíveis".

"Mas penso que ficou claro que caiu pela base todo e qualquer fundamento que pudesse haver para a teoria da cabala contra o Partido Socialista. O que se viu foi que neste processo o PS manipulou a prova, bateu a todas as portas para se proteger, sem qualquer respeito pelo Estado de Direito Democrático, sem respeito pelo Segredo de Justiça", afirmou.

ARA.

Lusa/Fim

Agência Lusa

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