Tabaco: 70% dos fumadores não consegue deixar vício por falta dinheiro para medicamentos-HSM

Os números dizem respeito aos 860 utentes das consultas de apoio ao fumador do Hospital Santa Maria (HSM) e foram hoje divulgados pela pneumologista responsável por aquele serviço, Fátima Caeiro.

"A taxa de cessação dos hábitos tabágicos ronda os 27 por cento", afirmou Fátima Caeiro, durante uma conferência a propósito do Dia Mundial sem Tabaco, que hoje se assinala em todo o mundo.

Entre as principais razões para este insucesso está a falta de acesso à terapêutica de substituição de nicotina: "As pessoas referem não ter capacidade económica para comprar os medicamentos", disse a peneumologista.

Fátima Caeiro fala também numa "barreira psicológica" que alguns utentes precisam de ultrapassar: "Não lhes custa gastar cinco euros por dia em tabaco mas não conseguem gastar 70 euros de uma só fez na farmácia".

Os números mostram que, em média, "21 por cento do orçamento familiar é gasto em tabaco. No cabaz familiar o cigarro surge em 13º lugar, acima dos medicamentos", afirmou Luís Rebelo, do Instituto de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina de Lisboa.

No entanto, Luís Rebelo sublinhou que "o mau da fita é o cigarro, não é o fumador", até porque "o tabaco é uma máquina muito poderosa de criar dependência".

Perante este quadro, o director clínico do HSM, Bugalho de Almeida, lançou um apelo à representante da Alta Comissária da Saúde, presente na conferência, para que aqueles fármacos passem a ser subsidiados.

"Os fumadores são doentes e precisam de apoio, precisam ter maior acesso aos fármacos, uma vez que muitas pessoas têm dificuldade em adquirir medicamentos que são essenciais", afirmou Bugalho de Almeida.

Entre os fumadores que recorreram ao serviço de apoio do Hospital Santa Maria, a maioria fumava mais de 30 cigarros por dia e já tinha tentado, sem êxito, deixar o vício.

A nível nacional, metade dos fumadores portugueses quer deixar de fumar, mas apenas um em cada três o tenta realmente, de acordo com o Eurobarómetro de Maio de 2007.

Dos que tentaram deixar o vício, apenas 14 por cento decidiu pedir ajuda profissional, lembrou por seu turno Emília Gomes, representante do Director Geral de Saúde, defendendo que "deixar de fumar com acompanhamento tem muito mais sucesso".

Luís Rebelo lembrou que actualmente os produtos de substituição são um negócio em expansão.

"Desde Maio de 2005 até Abril de 2006 [a venda de produtos de substituição] aumentou 103 por cento, atingindo os 8,4 milhões de euros", lembrou Luís Rebelo.

Outro grande negócio é a produção de tabaco. Em 2005, 1.500 hectares de terreno português eram campos de cultivo de tabaco, propriedade de cerca de 300 produtores.

Um negócio também rentável para o Estado, já que "o tabaco constitui uma enorme fonte de receitas para o Governo", representando 1.400 milhões de euros anuais, criticou Bugalho de Almeida.

Bugalho de Almeida lembrou que a probabilidade de um fumador ter bronquite ou enfisema é cerca de 17 vezes maior do que num não fumador.

Um outro inqurito feito aos funcionários do Hospital Santa Maria e divulgado hoje revelou que 70,8 por cento se sentia incomodado com o fumo dos outros e 78 por cento dos fumadores gostaria de deixar de fumar, "se o pudesse fazer facilmente".

Diversos estudos indicam que os jovens fumam cada vez mais e, de acordo com um inquérito realizado em 2003 a cerca de nove mil adolescentes portugueses entre os 11 e os 19 anos, 19,6 por cento dos rapazes e 18 por cento das raparigas eram fumadores.

Desde 1998, quando havia apenas um serviço de saúde que oferecia consultas de apoio ao fumador, o número de consultas de cessação tabágica nos centros de saúde de todo o país passou para 112.

SIM

Lusa/FIM

@ Agência Lusa

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