Cascais: Demolições no bairro do Fim do Mundo iniciaram-se sob clima de indignação (ACTUALIZADA) - C/ fotos

"Não tenho nada e não tenho sítio para onde ir. A Câmara diz que sou isolado, que vivo sozinho e não tenho direito a casa", disse à agência Lusa o guineense Almeida da Silva, legalizado e residente no bairro há sete anos.

Rita Silva, da Associação de Solidariedade Imigrante, disse à Lusa que 26 pessoas vão ficar desalojadas, uma das quais, "uma idosa e doente, que vai ficar treze dias numa pensão e depois não terá para onde ir".

"A Câmara anda a acalmar os ânimos assim: a Isabel tem três dias na pensão, a Dina tem três dias e a Teresa treze e os homens não têm qualquer solução", disse, referindo-se a casos de desalojados a quem a autarquia pagará a estada numa pensão por uns dias.

Nassy Santos, mãe de cinco filhos, é uma das 200 residentes do bairro e habita numa barraca de construção ilegal com uso ilegal de água e luz, e adiantou à Lusa que será uma das realojadas dentro de duas semanas.

"Disseram-me que vão realojar-me mas só daqui a duas semanas e até lá tenho que encontrar um sítio para mim e para os meus filhos. Pedi para demolirem a barraca só quando eu pudesse ir para a casa nova mas disseram-me que não", descreveu, a chorar.

No entanto, em comunicado divulgado segunda-feira, a autarquia de Cascais garantiu que nenhuma família do Bairro do Fim do Mundo ficará desalojada devido à demolição das barracas.

A autarquia afirmou que o realojamento das famílias afectadas pelas demolições "foi devidamente acautelado" e que as pessoas "vão ser realojadas em vários empreendimentos de habitação social do concelho".

O aviso das demolições surgiu no bairro na sexta-feira passada, quando "ao chegar do trabalho as pessoas viram os editais de demolição colocados nas suas portas", adiantou à Lusa Armando Sá, da Associação de Moradores do Fim do Mundo.

Até Maio de 2009 serão demolidas as restantes barracas existentes no bairro, continuando a residir ali cerca de 49 pessoas, que hoje viram o acesso à água cortado pelos trabalhadores camarários.

"Se cortam a água como é que as pessoas vão viver ali com crianças?", questionava o recente desalojado Kaká às autoridades, durante o corte da água.

O lixo existente no bairro, que lhe confere um aspecto de degradação, associado ao entulho que as máquinas da autarquia deixaram nos terrenos após a demolição preocupam alguns dos moradores que ali vão continuar a residir.

A demolição das barracas teve início às 09:00 num clima tenso mas sem violência, mas segundo Rita Silva, mais tarde, "houve um momento de exaltação, uns empurrões com bastões e escudos sem os residentes terem feito nada que levasse a isso".

"Há um cordão policial que não deixa ninguém passar", adiantou Rita Silva, membro da Associação de Solidariedade Imigrante, que por volta das 13:30 seguirá para a Câmara Municipal de Cascais juntamente com alguns habitantes do bairro para tentarem ser recebidos pelo presidente da autarquia, António Capucho.

A assistir às demolições esteve o dirigente da associação SOS Racismo, José Falcão, que acusou a Câmara de Cascais de "insensibilidade para com estes seres humanos que vão ficar sem casa".

JYR.

Lusa/Fim

@ Agência Lusa

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