Coimbra, 21 Jan (Lusa) -- Um conjunto de contos de "guerra", em que se cruzam vivências da meninice e os dramas da luta colonial, assinala quinta-feira, em Coimbra, a estreia literária do médico Eduardo Castela, pioneiro da telemedicina em Portugal.
"Coisas que não se esquecem...", título da obra, reúne seis contos em que, segundo o autor, se cruzam situações reais, vividas pelo próprio, com a ficção.
São memórias da guerra colonial vividas por Eduardo Castela na Guiné entre 1970 e 1972, entrecruzadas com vivências da meninice e juventude na cidade de Coimbra, nos anos 50 e 60, no auge do Estado Novo.
Além de pretender deixar um testemunho desses tempos registado em livro, Eduardo Castela confessou à agência Lusa que foi também uma "atitude de depuração", de se libertar de "venenos e revoltas dessa época", embora "muita coisa ainda tenha ficado por contar".
"Isto tinha de editar. É como me desinfectar de uma coisa criminosa que fizeram à minha geração", refere, acrescentando não ter pretensões literárias, nem de se assumir como escritor, mas simplesmente como médico, e nessa qualidade diz ter muito a fazer pela saúde.
Com sensibilidade e capacidade narrativa, o autor traz para os seus contos personagens como as do senhor José que cuspia na malha para ter sorte no jogo e da velha Maria que tratava maleitas com feitiços com azeite.
Dos tempos da guerra colonial, o furriel Vítor que usava, como talismã, no braço esquerdo o relógio automático Ómega que lhe oferecera a namorada, ou o narrador que prometia escrever as cartas e os aerogramas com a caneta de tinta permanente Ero que recebera para o exame de quarta-classe.
Os relatórios de operações no mato que nunca eram realizadas, os sacos de arroz deixados esquecidos na "picada" em dias de reabastecimento, nos tempos da Guiné, ou o pânico vivido ainda menino de que os guardas da fronteira de Badajoz confiscassem os caramelos que os pais compraram em Espanha, são outras vivências que transpõe para os seus contos.
Director do Serviço de Cardiologia do Hospital Pediátrico de Coimbra, Eduardo Castela fez as primeiras experiências de telemedicina em Portugal, com o Hospital de Leiria, em 1998. Actualmente, o seu serviço está ligado por telemedicina aos hospitais da região Centro e ao Hospital Pediátrico de Luanda.
Esta forma de "democratizar o acesso aos cuidados de saúde", como costuma dizer, partiu de uma experiência vivida anos antes nos Estados Unidos da América. Eduardo Castela é presidente da Associação Portuguesa de Telemedicina.
"Coisas que não se esquecem..." é editado pela Organização Não Governamental Saúde em Português, e as receitas destinam-se a ajudar a incrementar um projecto de telemedicina entre o Hospital Pediátrico de Coimbra e o Hospital Baptista de Sousa, de Cabo Verde.
Com a mesma chancela, e idênticos propósitos, a organização editou "Tchuba na Desert" (antologia de conto inédito caboverdiano), "Destino de bai" (antologia de poesia inédita caboverdiana), ambas organizadas pelo jornalista Francisco Fontes. Em parceria com a médica Rosa Costa, o mesmo autor organizou a antologia "Amar com amor", de poesia inédita caboverdiana e portuguesa.
O lançamento do livro de Eduardo Castela, quinta-feira, insere-se no encerramento das comemorações dos 15 anos da Saúde em Português.
Uma das maiores dificuldades sentidas ao longo da sua existência é a "falta de apoios" financeiros, razão que tem impedido o arranque do projecto de telemedicina em Cabo Verde, disse à agência Lusa Carlos Alberto Pereira, da direcção da instituição.
Um dos "grandes desafios" que actualmente a associação tem entre mãos é um projecto, iniciado há um ano, em Bafatá, na Guiné-Bissau, na área da educação para a saúde e reconstrução de postos de saúde, sublinhou.
As comemorações do 15º aniversário incluem, além do lançamento do livro de Eduardo Castela, a inauguração de uma exposição com fotografias sobre a actividade desenvolvida pela instituição, e um "jantar solidário".
FF/AMS.
Lusa/fim

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