Rio de Janeiro, Brasil, 08 Mar (Lusa) - O Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, disse hoje ter encontrado eco no seu homólogo brasileiro em relação à sua proposta para que haja uma concertação de posições em questões estratégicas para os dois países.
"Encontrei um eco que vai muito para além daquilo que eu pensaria com o meu maior optimismo possível", afirmou Cavaco Silva no Rio de Janeiro aos jornalistas portugueses que acompanham a sua participação nas celebrações dos 200 anos da chegada da corte portuguesa ao Brasil.
Cavaco Silva e Luiz Inácio Lula da Silva reuniram-se na sexta-feira, tendo abordado as relações bilaterais e a situação na América Latina, designadamente, o recente conflito entre Equador, Colômbia e Venezuela.
O chefe de Estado - que propôs anteriormente uma concertação de posições em questões estratégicas para os dois países - destacou a "vontade comum de trabalhar no sentido da afirmação e da projecção internacional da língua portuguesa, tirando partido dos audiovisuais, das tecnologias de informação e da criação conjunta de institutos culturais no estrangeiro".
"É um interesse estratégico dos dois países", frisou.
Por outro lado, referiu, os dois presidentes consideram as comemorações da transferência da corte portuguesa para o Brasil "uma forma de reforçar um projecto de futuro, no reforço de relações bilaterais, na construção de parcerias e de cooperações a nível internacional".
"O Presidente Lula é um amigo de Portugal e muito sinceramente quer tirar partido desta História comum e que a celebração da vinda da corte para o Brasil ajudou a tornar mais evidente aos olhos da opinião pública brasileira e dos políticos brasileiros", afirmou.
Lula da Silva "anunciou que a cimeira entre os dois governos vai ter lugar ainda este ano, em Brasília", disse Cavaco Silva.
A última cimeira Portugal-Brasil realizou-se no Porto, em 2005.
O Presidente brasileiro informou também Cavaco Silva dos resultados da recente reunião da Organização dos Estados Americanos "para tentar resolver o conflito entre a Venezuela, o Equador e a Colômbia".
Lula da Silva "estava imensamente satisfeito" com a resolução do conflito, disse o Presidente português.
Cavaco Silva salientou, a propósito, que "o Brasil não é apenas uma potência regional, é uma potência emergente a nível global".
Outro dos temas abordados no encontro foi o da emigração, nomeadamente os problemas dos últimos dias com a entrada de brasileiros em Espanha.
Cavaco Silva manifestou-se convicto que esses problemas poderão ser tratados por Madrid e Brasília "talvez depois de domingo, quando já estiver ultrapassado o conflito de natureza eleitoral que se vive" em Espanha, dado que a questão foi um tema da campanha.
O Presidente da República disse igualmente que a comunidade de 70 mil brasileiros em Portugal não constitui qualquer problema.
"Penso que os brasileiros se sentem bem em Portugal e os portugueses se sentem bem no Brasil", sublinhou.
"É bom que os fluxos sejam nos dois sentidos. É positivo para Portugal que exista aqui uma comunidade portuguesa forte (...) e é bom que nós possamos também acolher muitos brasileiros em Portugal", afirmou.
"Ajuda a melhorar o relacionamento entre Portugal e o Brasil e até um melhor conhecimento por parte dos brasileiros da realidade actual do nosso país", acrescentou.
Cavaco Silva também abordou a questão da comunidade brasileira em Portugal no discurso que hoje proferiu na sessão solene das comemorações do bicentenário da transferência da corte portuguesa para o Brasil, realizada no Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, criado em Maio de 1837.
"Faço votos de que os brasileiros sejam tão bem acolhidos em Portugal como os portugueses o foram no Brasil", disse aos cerca de 250 convidados que assistiram à cerimónia, tendo a seu lado Lula da Silva.
Cavaco Silva referiu-se aos empresários portugueses que apostam no Brasil, salientando que se trata de "um grande país do presente, onde vale a pena apostar e investir com visão de futuro", e não apenas um "lugar de turismo".
"É uma terra de investimentos, com potencialidades económicas à dimensão do seu imenso território", frisou.
Lula da Silva, por sua vez, salientou a influência de Portugal no Brasil, destacando que o Real Gabinete, considerado o símbolo da comunidade portuguesa, é uma "casa dedicada à língua portuguesa", onde existe a "maior biblioteca de autores portugueses fora de Portugal", com 400 mil livros.
"Que essa relação privilegiada entre Portugal e Brasil possa estender-se aos demais países lusófonos" através da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), referiu.
Lula da Silva referiu ainda que o padre António Vieira - "o mais brasileiro dos portugueses e o mais português dos brasileiros", que se distinguiu como "defensor dos direitos dos índios e dos negros" -, é "mais um vínculo" comum na "busca por um mundo mais justo e mais solidário".
Durante a cerimónia, Lula da Silva recebeu o título "Laurel de Gratidão", galardão máximo do Real Gabinete, oferecido também a Cavaco Silva, em 1993, então como primeiro-ministro de Portugal.
No evento foi ainda assinado um protocolo de cooperação na área da investigação científica entre a Universidade de Coimbra e instituições brasileiras de ensino superior.
Nem todos os convidados assistiram à sessão solene alegadamente por falta de espaço e por razões de segurança, o que levou alguns membros da comunidade portuguesa local a manifestar o seu desagrado à porta do Real Gabinete.
Gabriel Cipriano, 72 anos, há 49 no Brasil, era um dos mais indignados, por considerar a cerimónia de hoje a "mais significativa para a comunidade portuguesa".
"Fui convidado para o almoço de amanhã (domingo, oferecido à comunidade portuguesa por Cavaco Silva), mas depois disto até preferia não ir", disse à Agência Lusa.
"Mas irei por respeito ao Presidente da República", acrescentou.
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