República: Mausoléu de homens que mataram o rei deve ser reposto - Livres Pensadores

O presidente da Associação Promotora do Livre Pensamento (APLP), Luís Vaz, revelou à Agência Lusa que desde 2008 - ano em que se assinalou o centenário da morte do rei Dom Carlos, da autoria de Manuel dos Reis Buíça e Alfredo Luís Costa - que esta associação envida esforços para reaver o mausoléu.

Em causa está o sepulcro que, em 1914, acolheu as ossadas dos regicidas e que foi construído pela Associação do Registo Civil.

No seu livro "As mortes que mataram a monarquia", Luís Vaz conta que o monumento foi erigido por decisão da Associação do Registo Civil e que o seu autor foi o arquitecto Wenceslau de Lima.

"Uma cercadura em aros de ferro fundido. Dois punhos robustos de trabalhador espoliado, um deles segurando um facho para alumiar os espíritos menos esclarecidos, dois braços de inteireza dórica" compunham o mausoléu, segundo descrição que consta no livro do historiador.

O monumento fúnebre teria ainda uma lápide com o nome dos regicidas, classificados como "libertadores da pátria portuguesa".

Depois de erguido, o mausoléu foi destino de romagens anuais, aquando da efeméride do regicídio, a 01 de Fevereiro, razão que terá estado na origem da posterior mudança.

No livro "Clericais e Livres Pensadores - O grande confronto", Luís Vaz desenvolve este tema, escrevendo que, "a partir de 1926, data da queda de República, todas as romagens ao mausoléu começaram a ser símbolo de resistência contra a ditadura".

Para a justificação da transferência das ossadas dos regicidas, a Repartição de Higiene Urbana terá alegado, em 1940, que o mausoléu "prejudicava gravemente o trânsito", conta o historiador no livro.

Luís Vaz foi no encalço do mausoléu e encontrou no Arquivo do Arco Cego da Câmara Municipal de Lisboa um "texto produzido pela primeira Repartição de Higiene Urbana", sem data e assinatura, que o descreve.

"No depósito de materiais deste cemitério, encontram-se depositados alguns símbolos que ornamentavam o primeiro jazigo... um facho com altura de 1,20 metros com duas mãos parcialmente partidas e uma corrente... e uma lápide com as dimensões de 0,55 m/0,60m com a seguinte inscrição: Alfredo Luís da Costa e Manuel dos Reis Buíça, libertadores da Pátria Portuguesa, 01 de Fevereiro de 1908 Associação do Registo Civil".

As ossadas de Buíça e Costa foram transferidas para uma discreta campa, onde se encontram até hoje, sendo há três anos destino de uma romagem organizada pela APLP, por altura do aniversário do regicídio, que reúne poucas dezenas de pessoas no Alto de São João.

Em 2008, a APLP escreveu uma carta à CML a solicitar a reposição do mausoléu, propondo-se suportar os custos da mudança.

Segundo Luís Vaz, os serviços da autarquia que tratam desta matéria informaram a associação de que as possibilidades desta mudança estão a ser estudadas.

A Agência Lusa questionou a Divisão de Gestão Cemiterial da Câmara Municipal de Lisboa sobre a existência deste mausoléu e a possibilidade de o mesmo ser reactivado, 70 anos depois, mas não obteve resposta em tempo útil.

Para Luís Vaz, o que está em causa é o respeito pela "última das missões" da Associação do Registo Civil, a que pertenceram Buíça e Costa e à qual "se deve o Registo Civil Obrigatório em Portugal, a separação das igrejas do Estado, a implementação da educação laica alicerçada na corrente da pedagogia racionalista e o regicídio".

A abertura oficial das comemorações do Centenário está marcada para 31 de Janeiro, no Porto, e conta com a presença do Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, havendo já actividades no dia anterior, 30 de Janeiro.

Lusa/Fim

@ Agência Lusa

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