Faro, 22 Jan (Lusa) - O julgamento das alegadas torturas a Leonor Cipriano, mãe da Joana, iniciou-se hoje com grande atraso no Tribunal de Faro mas foi interrompido por breves minutos pela entrada e saída do advogado Marcos Aragão Correia.
O advogado entrou às 11:20 na barra do Tribunal e pediu para participar na sessão, apesar de ter sido suspenso preventivamente hoje de manhã pela Ordem dos Advogados.
O juiz Henrique Pavão recusou o pedido de Marcos Aragão Correia e obrigou-o a abandonar a sala.
"O doutor vai sair a bem ou a mal desta sala de audiências", declarou o juiz.
Perante esta ordem, Marcos Aragão Correia ausentou-se da sala, manifestando revolta pela decisão do juiz, e dirigiu-se para a secção central e de serviço externo do tribunal, onde ainda se encontra a escrever um requerimento.
A sessão foi retomada com Leonor Cipriano a ser assistida por uma advogada oficiosa, procedendo-se à audição de Ana Maria Calado, directora do Estabelecimento Prisional de Odemira, onde Leonor Cipriano se encontra a cumprir 16 anos de cadeia pelo assassínio de sua filha Joana.
Marcos Aragão Correia foi hoje suspenso preventivamente, a pedido do Conselho de Deontologia da secção da Madeira da Ordem dos Advogados.
O advogado deveria participar hoje no tribunal de Faro na continuação do julgamento das alegadas torturas de elementos da Polícia Judiciária à sua constituinte.
O advogado de Leonor Cipriano foi notificado hoje de manhã por um elemento do Conselho Distrital do Algarve da Ordem dos Advogados, Hélder de Sousa, que se escusou a especificar o teor do processo disciplinar instaurado a Marcos Aragão Correia.
A notificação teve lugar numa sala do tribunal de Faro, antes do início da sessão de hoje do julgamento.
No dia da última sessão do julgamento, a 16 de Janeiro, o advogado de Leonor Cipriano, Marcos Aragão Correia, leu um comunicado de imprensa onde informava que a mãe de Joana havia revelado factos novos referentes ao desaparecimento da filha, documentados e assinados recentemente na prisão de Odemira, onde se encontra detida.
Segundo o advogado, o tio da menina Joana, João Cipriano, terá convencido a irmã, Leonor Cipriano, a entregar a filha aos cuidados de pessoas estranhas à família, em contrapartida de uma ajuda monetária.
O ex-inspector da PJ Gonçalo Amaral, confrontado com os novos factos, classificou no dia da última sessão de julgamento de "mentiras" as declarações que alteram o depoimento inicial de Leonor Cipriano.
O processo das alegadas agressões a Leonor Cipriano por inspectores da PJ está relacionado com o denominado "caso Joana", que remonta a 12 de Setembro de 2004, dia em que a menina, de oito anos, desapareceu da aldeia de Figueira, Portimão, Algarve.
As acusações do Ministério Público contra cinco inspectores e ex-inspectores da Judiciária surgiram na sequência dos interrogatórios na PJ de Faro em 2004, altura em que Leonor terá aparecido com lesões na cara e no corpo no Estabelecimento Prisional de Odemira, onde estava em prisão preventiva.
Três inspectores são acusados de crime de tortura, um é acusado de crime de falso testemunho e de omissão de denúncia e um quinto é acusado do crime de falsificação de documento.
A mãe de Joana, Leonor Cipriano, e o tio, João Cipriano (ambos irmãos), estão condenados pelo Supremo Tribunal de Justiça a 16 anos de prisão cada um, pelos crimes de homicídio e ocultação de cadáver da criança.
CCM/ANB
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