Isto é uma página de arquivo

Todas as notícias do dia estão agora disponíveis na página principal do portal SAPO

21 de Janeiro de 2008, 15:03

Casa Pia: Testemunha João Pedroso acusa investigação de passar de "forma cirúrgica" informações aos media

"Não tenho qualquer dúvida de que o Ministério Público (MP) e a investigação deram, em momentos do processo, notícias cirúrgicas aos jornais", disse o advogado João Pedroso à saída do Tribunal do Monsanto, Lisboa, repetindo o que já havia afirmado no interior da sala onde decorre o julgamento do processo Casa Pia, com sete arguidos.

João Pedroso, que sempre acompanhou a defesa do seu irmão, juntamente com o advogado Celso Cruzeiro, afirmou na sala de audiências que tem provas de que a Procuradoria-Geral da República (PGR), a seguir ao eclodir do escândalo de pedofilia, "punha notícias verdadeiras e falsas na rua através da assessora" de imprensa, cujo nome identificou.

"Numa fase inicial, a investigação (MP e PJ) davam com frequência informações falsas ou parcialmente falsas aos jornais para serem publicadas. Sobre isto não tenho dúvidas, reitero, mantenho e provarei se for necessário", reforçou o advogado, já no exterior do Tribunal.

Durante a audiência, João Pedroso, que chegou a ser chefe de gabinete do ex-ministro e líder socialista Ferro Rodrigues, cujo nome foi várias vezes citado no processo, mas nunca foi constituído arguido, deu como exemplo de fugas de informação uma conversa que manteve com um jornalista de um diário lisboeta.

João Pedroso relatou que, logo após a prisão preventiva do seu irmão, em Maio de 2003, recebeu no seu telemóvel uma chamada do referido jornalista, cerca das 24:00, em que este lhe fez perguntas sobre Paulo Pedroso, que o ouviu confirmar com alguém noutro telefone. "Vê lá se isto está no processo?".

Pedroso disse desconfiar que esta terceira pessoa seria alguém do MP ou da PJ e sublinhou que "havia fontes de informação a divulgar notícias e sistemas de informação e contra informação", alguns alegadamente da própria Judiciária.

No exterior do Tribunal do Monsanto, o jurista, que foi ouvido durante pouco mais de uma hora, acentuou que "este processo precisava de uma contra investigação, desde o dia que começou até agora, relativamente à investigação".

"Eu gostaria de discutir toda essa investigação e saber por que é que as autoridades em Portugal não vão investigar todas as coisas que lhes foram denunciadas e relatadas", afirmou.

Questionado sobre por que motivo considerava que a investigação deste processo tinha sido mal conduzida, João Pedroso respondeu: " Não lhe sei explicar, para isso era preciso ter poderes de investigação, era preciso inquirir os juízes, os procuradores, a PJ".

"Eu só posso relatar que escutas são truncadas, que processos são alterados, que assinaturas que existem num sentido existem noutro. Hoje sabemos que houve prova que não foi junto ao processo, prova que não foi considerada, que todos os telefonemas que tinham dos jovens esconderam-nos. Tudo isso são factos que só quem pode investiga. Eu sou um mero cidadão, advogado num processo com os meios que tenho e não posso investigar", vincou.

No seu testemunho, entre outros, o advogado acusou a antiga provedora da Casa Pia de Lisboa Catalina Pestana de ter "contactado pessoas chave para ajudar à sua nomeação" e que esta "sempre teve o sonho de ser provedora" da instituição.

Num primeiro relato hoje em tribunal, o advogado disse que Catalina lhe telefonou logo após o eclodir do escândalo para ele contactar dirigentes do Partido Socialista (PS) para apurar se estes estavam de acordo com a sua nomeação para provedora, já que teria sido convidada pelo ministro Bagão Félix para o cargo.

Pedroso contou que falou com o irmão e com o então secretário-geral do PS, Ferro Rodrigues, que concordaram com a escolha.

Já depois, e em resposta a perguntas do procurador do Ministério Público, João Aibéo, a testemunha afirmou que Catalina Pestana terá feito esses contactos para garantir que não havia resistências à sua nomeação e que depois disso foi oferecer-se ao ministro Bagão Félix para ocupar o cargo de provedora da Casa Pia.

"Não tenho dúvidas de que a doutora Catalina tomou a iniciativa de ir oferecer-se junto do gabinete do ministro Bagão Félix, pelo menos foi aquilo que ela me disse", relatou.

Disse que, já após a detenção do irmão (21 de Maio de 2003), teve "uma conversa cordial" de "quatro ou cinco horas" com Catalina Pestana, em casa desta, em que a então provedora lhe disse que achava que Paulo Pedroso era culpado e que um dos jovens lhe contou que ele tinha no corpo uma mancha que o identificava.

Pedroso contou que desmentiu a Catalina que o irmão tivesse qualquer mancha que o identificasse e que esta se prontificou a contar esse pormenor aos investigadores.

Afirmou também que Catalina Pestana "pintava a manta a dizer que meio mundo político ia ser preso, o que não veio a acontecer e a maioria não foi sequer constituída como arguida ou como testemunha".

Relatou igualmente que, além de desportistas, pessoas do mundo do teatro e da televisão, Catalina lhe falou do nome de mais de 20 políticos, descrevendo hoje em tribunal os que se lembrava e que eram essencialmente do universo político do PSD e do PS.

No entanto, garantiu que nos nomes apontados por Catalina Pestana, e que lhe teriam chegado através de conversas com alunos da instituição, como a própria provedora testemunhou em tribunal, constavam gente de todos os partidos, com excepção do Bloco de Esquerda.

Afirmou ainda que o discurso de Catalina Pestana era contraditório, pois a provedora "tão depressa dizia que acreditava nos jovens, como admitia que por algumas notas eles diziam o que quer que fosse".

À saída da audiência, a testemunha disse que a ida ao tribunal o "fez sofrer", sobretudo quando teve de "relatar um conjunto de ilegalidades feitas pelo MP" no processo.

O advogado da Casa Pia e das alegadas vítimas, Miguel Matias, afirmou aos jornalistas no final da audiência que o depoimento de João Pedroso foi "algo promíscuo, entre o advogado, que o foi nos autos e ainda hoje o é contra as vítimas, e o irmão" Paulo Pedroso.

ARA.

Lusa/Fim

Agência Lusa

Comentários

Critério de publicação de comentários

publicidade

publicidade

publicidade