Cruzeiro italiano encalhadoFotografia: EPA/FRANCO SILVI
Tomemos o caso do navio que hoje jaz imóvel, como uma mastodôntica baleia, com o ventre esventrado, recostada em agonia junto à pequena ilha de Giglio. É uma história que começa com um brinde e acaba com incompreensíveis erros humanos, indecisão, descoordenação, incompetências e negligências (é irresistível a comparação com o desgoverno da Europa em crise).
Além do que emerge como um pequeno favor ao gosto de um presidente de câmara, mas que se revela criminoso: o desvio de rota do navio com perigosa e louca demasiada aproximação a terra, para o capricho ritual de uma “espetacular” saudação do navio, com 4229 pessoas a bordo, a quem está nas esplanadas daquele ilhote de Giglio, onde vivem umas 800 pessoas.
É sabido que o código de honra dos homens do mar manda que, perante um desastre a bordo, o comandante seja o último a abandonar o navio. Está amplamente provado que o comandante do Costa Concordia, antes da meia-noite já viajava de táxi, em terra.
É sabido que o código de honra dos homens do mar (que é suposto valer ainda mais do que a lei) manda que, perante um desastre a bordo, o comandante seja, em qualquer caso, o último a abandonar o navio. Está amplamente provado que o comandante do Costa Concordia, Francesco Schettino, antes da meia-noite desta fatídica sexta-feira já viajava de táxi, em terra. Procurava escapar-se da zona de desastre. A essa hora, centenas de pessoas ainda continuavam dentro do navio a lutar pelo salvamento.
Schettino, o comandante do desastre, é um italiano com 52 anos de idade e 30 de mar. Entrou para a companhia proprietária de sumptuosos navios de cruzeiro em 2002. Foi admitido, ironia da história, como responsável pela segurança dos navios. Em 2006 foi promovido a comandante. É ele quem está no centro de uma calamitosa e criminosa condução dos sucessivos acontecimentos na noite desta sexta-feira. Vale seguir a cronologia dos fatos, com o apoio do relato de vários repórteres da imprensa italiana:
Às 19 horas e 5 minutos da noite de sexta-feira, 13 – O Costa Concórdia zarpa do porto de Civitavecchia, a 80 quilómetros para noroeste de Roma, inicia a navegação em direção a Savona, escala seguinte de uma semana de cruzeiro mediterrânico com passagem por Palermo, Cagliari, Palma, Barcelona e regresso ao porto de partida, Marselha.
Cerca das 21 horas e 20 minutos – A guarda costeira italiana regista o percurso do navio, abundantemente fora da rota. As regras impõem navegação a 5 milhas da costa, ou seja, a cerca de 8 quilómetros, e o Costa Concordia seguia numa rota que o colocava a escassas centenas de metros das ilhas do arquipélago toscano no percurso. Mais: deveria navegar para o lado exterior da ilha de Giglio, e seguia em direção ao lado interior, mais rochoso.
21h 35m – A maior parte dos passageiros janta dispersa por algum dos cinco restaurantes do navio. É provável que um outro dos privilegiados nas 58 suites do paquete tenha preferido começar com uma taça de champanhe na varanda do camarote, para mais de perto apreciar a passagem do navio, naquele momento, a 150 metros da ilha de Giglio. Por todo o navio, ouve-se música, de orquestra ou rock, conforme o local. Subitamente, sente-se um violento safanão e tudo no navio oscila ou cai: pratos, cadeiras, mesas. Tudo desgovernado. Há um apagão geral da iluminação e, logo a seguir, outra pancada, seca, violenta. (Soube-se mais tarde que a pancada foi a batida num velho rochedo, abrindo um rasgão com mais de 50 metros no casco do paquete com 290 metros de comprimento).
21h 36m – A energia eléctrica regressa e, através dos altifalantes é dito que o que aconteceu foi apenas um problema de quebra de energia por falha nos geradores. A mentira seria repetida seis vezes ao longo da hora seguinte.
Há versões contraditórias sobre onde estaria, nesse momento, o comandante Schettino: há quem diga que estava na sala de jantar, há quem diga que estava na ponte de comando do navio.
21h 45m – A casa das máquinas do navio fica alagada com a água que entra pelo rombo no casco. O Costa Concórdia começa a inclinar-se para bombordo.
21h 46m – Schettino está na sala de comando do navio e percebe que o Costa Concórdia não pode continuar a navegar.
21h 57m – A jovem Lucia Calapai está em casa, em Prato, cidade toscana com 157 mil habitantes, quando o telemóvel toca e lhe aparece no ouvido a voz aflita do irmão que viajava no cruzeiro: “Chama a mamã, é muito urgente”. Lucia não chama a mãe, quer ela saber o que se passa, ouve um apelo desesperado: “Pede ajuda, estamos a afundar-nos”. Um minuto depois, Lucia, em sobressalto, avisava os 'carabinieri' de Prato e perguntava-lhes: o que se pode fazer?
21h 59m – Os 'carabinieri' de Prato contatam a capitania de Livorno, contam que alguém está a dizer que o paquete Costa Concórdia está a afundar-se. A capitania de Livorno responde que não recebeu nenhum “mayday” (modo geral de alarme no mar), mas vai ver. De Livorno falam com o porto de Civitavecchia e com o de Savona, escala seguinte do Costa Concórdia: nenhum aviso de problema, o navio está nos radares.
22h 00m – No mar, a 150 metros da ilha de Giglio, o navio inclina-se e tomba cada vez mais. Nada é dito aos passageiros.
22h 10m – A capitania do porto de Livorno que, entretanto, com a chamada de terra, tinha iniciado uma investigação sobre o que se passava, apura que o navio está em graves dificuldades. Há comunicação direta com o comando do navio.
22h 12m – A capitania de Livorno começa a organizar as operações de socorro. Fica em contacto permanente, via rádio, com o navio.
22h 17m – A capitania de Livorno percebe que o comandante do Costa Concórdia, apesar de com o navio a afundar-se, não fez soar as sirenes de alarme. Supostamente, para evitar o pânico – que, no entanto, estava instalado entre passageiros e tripulantes, sem informação sobre o que estava a acontecer e a sentirem-se dentro de um Titanic do século XXI. O comandante do Costa Concórdia recebe ordem do comando marítimo em terra para fazer imediatamente soar o alarme.
22h 24m - A sirene de alarme já soou por seis vezes com apito longo, e uma sétima vez de modo breve. A bordo, vigora uma única lei, a da sobrevivência. Passageiros e tripulantes agarram-se aos coletes de salvamento e atropelam-se em direção aos barcos salva-vidas, construídos para abrigar 150 pessoas cada um. O caos a bordo começa a ser vivido também em terra, na ilha de Giglio, onde toda a gente vê o navio a naufragar à sua frente. Os primeiros náufragos chegam a terra. O padre, Don Lorenzo, abre a igreja, para acolher os que sabe que vão precisar muito de abrigo.
23h 10m – 94 minutos depois de o navio ter chocado com uma rocha que lhe causou um rombo, descola o primeiro helicóptero de socorro. É um heli da marinha italiana, levanta da base de Luni, tripulada pelo capitão Salvatore Silona. Avança para Giglio à máxima velocidade possível, mas só consegue chegar à zona de naufrágio 40 minutos depois. A presença deste helicóptero foi fundamental para ajudar e içar dezenas de pessoas que já não conseguiam sair de zonas isoladas do convés. Os faróis do helicóptero foram, mais de duas horas depois, a primeira indispensável luz forte a iluminar a zona de desastre e caos.
23h 30m – A bordo do Costa Concórdia as hierarquias estão invertidas. O comandante já se escapou para terra num dos barcos salva-vidas. Quem, dentro do navio, faz por organizar o salvamento, são os colombianos, hondurenhos, chineses, filipinos e outros que constituem a maioria da tripulação do navio, com origem em 20 nacionalidades.
23h 35m – O caos, o medo, o terror, imperam a bordo. Um tripulante colombiano escolta um homem com duas crianças ao colo. Trata de garantir que ele entra no salva-vidas mais próximo.
23h 40m – O italiano Manrico Gianpedro, comissário de bordo do navio, não pára de ajudar pessoas. Ajuda-as a safarem-se de zonas de maior desespero e encaminha-as para os salva-vidas. Entre os passageiros, muitos precisam de cadeira de rodas para se movimentarem. Também há muitas crianças. No decurso do salvamento, o comissário Manrico cai e fica com uma perna partida, sem conseguir mexer-se. Já tinha ajudado mais de 50 pessoas. Ficaria no navio por 36 horas, até ser resgatado numa aparatosa operação de salvamento.
23h 55m – O comandante Schettino está em terra. Apesar da emergência geral, apesar de um agente da guarda costeira lhe ter proposto que voltasse ao navio para dirigir o salvamento, o comandante desertor pede a um motorista de táxi que o leve para fora dali.
00h 15m – Mais de 2 mil pessoas continuam a bordo do navio tombado.
01h 55m – Parte de terra firme o primeiro navio de socorro que, três horas depois, haveria de colocar em Porto Santo Stefano, o porto de Giglio, a maior parte dos náufragos do Costa Concórdia. Ali receberam o primeiro acolhimento, tratamento e conforto.
02h 08m – Numa cala, por entre as várias enseadas do ilhote de Giglio, é encontrado o corpo de um náufrago. Foi o primeiro passageiro do navio a ser resgatado já sem vida. Não seria o último.
Amanhecer de sábado – O luxuoso colosso dos mares continua tombado a 150 metros da costa. Teme-se o naufrágio total e a maré negra. Mas também há a grande preocupação por umas 40 pessoas que faltam. As buscas continuam a bordo. Há gente que ainda vai ser salva do pesadelo.
Na tarde de sábado – O comandante e o 2º oficial do Costa Concórdia são detidos pela polícia de Grosseto, cumprindo uma ordem do Ministério Público italiano, que os mandou prender, preventivamente, pela gravidade dos delitos “supostamente cometidos” – entre eles, o de homicídio culposo -, pelo perigo de fuga e de destruição de provas sobre as causas do desastre.
Passadas 24 horas, o comandante passou de máximo suspeito a máximo acusado. Na origem de tudo, um brinde: uma manobra que um histórico comandante da Costa Crociere, Mario Palombo, converteu em tradição. Palombo era de Giglio e, quando conduzia cruzeiros de luxo por aquelas águas do Tirreno, abrandava a marcha, aproximava-se de terra, fazia soar as sirenes, e havia festa e entusiasmo, em terra e a bordo. Nesta sexta-feira, 13, Schettino decidiu emular Palombo. Este brinde perigoso foi fatal.
O Costa Concordia é um sofisticado navio de vanguarda tecnológica. Não resistiu aos erros humanos. O desastre veio evidenciar, para além do grave desvio de rota, negligências em cadeia, no sistema de socorro, a bordo e em terra. Faltou liderança competente, responsável.
Precisamente à hora em que o Costa Concórdia encalhava, a agência S&P anunciava a desclassificação do rating financeiro de nove países europeus.
Muitos clamam, há já bastante tempo, que o naufrágio geral da Europa está a acontecer por falta de quem tenha estatura para comandar o navio.