30 de Março de 2012, 08:23

A rua mais portuguesa de Colónia

Há pastel de nata, bolo de bacalhau e cerveja à portuguesa

Existe um acordo tácito para quem percorre a artéria que liga K-Nippes a Köln-Ehrenfed, duas estações de comboio da região metropolitana de Colónia. O pacto é falar português.

A rua de sete quarteirões, no centro da cidade, há muito que deixou de ser mais um arruamento da capital do catolicismo alemão. A Liebigstrasse é um local de culto para os portugueses residentes na região. Faça chuva, sol, frio ou calor, é ponto de encontro para jogos de futebol, conversas espontâneas e pezinhos de dança.

Nas campainhas das portas escrevem-se apelidos em português, nas janelas a bandeira portuguesa é hasteada sempre que as competições internacionais de futebol se aproximam.

Ilda Almeida trata a cidade pelo nome: Köln. “Não vim à procura de mais qualidade de vida, a vida em Portugal é melhor”, diz, sete anos depois de ter chegado à Alemanha. “Só que aqui uma pessoa não passa a vida contar trocos, consegue guardar algum e pensar, quem sabe, em montar um dia um negócio em Portugal.”

Na região de Colónia vivem 3590 portugueses, segundo dados oficiais das autoridades locais, e a maioria emigrou, tal como Ilda, à procura de liquidez financeira.

Os filhos da portuguesa nascida numa aldeia do interior de Portugal, na Guarda, têm 17 e 12 anos e frequentam escolas públicas de Colónia. Uma vez por semana, têm aulas de português, uma oferta prevista no programa de ensino alemão. “Estou aqui, mas sou portuguesa. Adoro o meu país e a minha língua”, refere.

Ilda Almeida trabalhou na Delphi, na Guarda, e numa pastelaria ao mesmo tempo e depois tentou a sua sorte em Lisboa. O ex-marido e pai dos seus dois filhos deu os primeiros passos fora de Portugal, incentivado por familiares a residir na Alemanha. “E eu vim seis meses depois para trabalhar num Eiskaffee”, atalha com o seu sotaque português, referindo-se à gelataria onde esteve dois anos e meio.

Hoje, é uma das responsáveis pela pastelaria Café Luso, o número 118 de Liebigstrasse. “Os alemães procuram o pastel de nata, os portugueses vêm atrás do pão”, diz, sorrindo.

“Estão sempre a entrar e a sair, são portugueses alemães, turcos. Gostam da nossa pastelaria, do nosso café, do pão, de tudo”, assevera.

Sentados junto ao balcão, num domingo chuvoso, Rodrigo e Moisés Minhava, dois portugueses naturais de uma aldeia trasmontana, vão talhando críticas, enquanto saboreiam um café nacional, acompanhado por broa com queijo da serra. “Portugal pede aos jovens para emigrar, como é que o país pode andar para a frente?”.

“E o mal é que se habituaram a receber subsídios sem fazer nada. Se há seca, pedem-se indemnizações, se chove muito, pedem-se indemnizações, se há frio, pedem-se indemnizações, onde é que isto já se viu?”, questiona Rodrigo.

Ao fim-de-semana, Ilda Almeida não tem mãos a medir. “Às vezes chegam a juntar-se aqui mais de duzentas pessoas ao mesmo tempo.”

Emprego procura-se

No verão passado, a portuguesa colocou um anúncio num jornal nacional de tiragem diária para encontrar mais um funcionário para a pastelaria. “Não tive tempo para ler todas as respostas.”

Desde o início de janeiro de 2012, Ilda confessa que o café já recebeu uma dezena de pedidos espontâneos de emprego. “Aparecem à porta, pedem-nos trabalho, deixam os currículos, mas é impossível empregar todos os portugueses que aqui aparecem.”

São colegas lusitanos que percorrem a rua, de porta em porta, à procura de uma oportunidade. Do outro lado da rua, no STOP Bar, Celso Lopes é quem comanda as hostes. Tinha 21 anos quando decidiu emigrar. “Não me faltava trabalho em Portugal, mas ganhava-se pouco”, justifica.

Também começou numa gelataria em Colónia, em 1998. Se está arrependido? Tem a resposta na ponta da língua: “Claro que não, em Portugal não teria tido as mesmas oportunidades”. “Vim sem nada, hoje estou à frente de um bar, acha que seria possível em Portugal? É um país onde tudo custa muito dinheiro”.

Viaja todos os anos, pelo menos uma vez, para Gontães, a aldeia de Vila Real que o viu crescer. “Mas para já não está nos meus planos regressar”, descarta.

“A vida lá não está fácil. Estão a cumprir as medidas impostas pela Troika, mas Portugal está bom é para os ricos”.

Celso acompanha a atualidade noticiosa, faz questão de ter a televisão sintonizada em canais portugueses e não poupa críticas à vida política do país mais ocidental da Europa. “Na Alemanha tudo funciona melhor. Há disciplina, regras, à mínima suspeita de corrupção, saltam fora. Aqui não se fazem políticos como se fabricam em Portugal”.

Veio sozinho para o país onde o ordenado médio atinge os 2800 euros, trabalha todos os dias, chega a estar 12 horas atrás do balcão. Só sente falta do sol e da comida de casa e tem saudades da família.

Há mais tempo na Alemanha, António Silva chegou com 23 anos. Hoje, com 64, lembra que viajou para o país com o objetivo de “comprar terreno, fazer casa e viver a vida”.

Tinha um plano definido, mas não tinha estratégia para cumpri-lo. “Os primeiros tempos foram difíceis, não sabia falar alemão”, recorda. “Mas aprendi, como tudo na vida. Basta ter interesse”.

Ao fim de três dias à experiência numa empresa de construção civil, ofereceram-lhe um contrato de trabalho. Mais tarde abriu um negócio por conta própria no mesmo ramo e hoje chefia o Restaurante Vasco da Gama. Os produtos são frescos, vêm de Portugal e são fornecidos por um armazém de Colónia que abastece outros restaurantes locais. “Temos tudo o que é comida portuguesa”, indica, apontado para o menu, onde se lia que o prato do dia era Feijoada à Transmontana.

“Cerca de 70 por cento dos meus clientes são alemães. Vêm à procura, principalmente, de peixe, mas também de frango no churrasco.”

Portugal no coração, mas fora dos planos

Tal como Ilda e Celso, também António está desiludido com o sistema político em Portugal. Não quer voltar. “O meu filho está em Lisboa, mas aqui não me falta nada. Não confio no sistema nacional de saúde, tal como outros portugueses que continuam a vir à Alemanha receber tratamento, mesmo depois de se terem reformado e regressado ao país”, lamenta.

“Se puder, continuarei a ir a Portugal todos os anos, mas a minha vida e o meu futuro estão aqui, na Alemanha”.

SAPO

Este artigo foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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