Isto é uma página de arquivo

Todas as notícias do dia estão agora disponíveis na página principal do portal SAPO

08 de Agosto de 2011, 14:52

Lisboa: Fotografias eternizam idosos do Beco das Farinhas nas paredes das suas casas

Quem passa pelo beco das Farinhas ou pelo largo dos Trigueiros não pode deixar de reparar que as paredes têm gente. São fotografias impressas nas casas, com os gestos próprios do quotidiano dos moradores mais idosos, numa exposição ao ar livre que já tem dois anos, praticamente desconhecida dos lisboetas, mas que é famosa em todo o mundo devido aos turistas que por ali sobem para o Castelo.

O projeto chama-se “Tributo”, porque foi a forma que a fotógrafa britânica Camilla Watson encontrou para homenagear as pessoas da rua onde tem o seu ateliê, que a acolheram “tão bem” e “tornam esta parte da Mouraria tão especial”.

“Sempre imaginei as caras deles nas paredes do beco, porque esta parte de Lisboa é um pouco antiga, com as paredes muito degradadas, e muitas destas pessoas que têm mais de 70 anos, nasceram cá e para mim eles são as paredes”, afirmou a fotógrafa, que morou no Brasil e passou por Lisboa há quatro anos, em trânsito de São Tomé e Príncipe, mas acabou por ficar. Até hoje.

Além de viverem no beco ou no largo, os modelos de Camilla têm de ter mais de 70 anos, porque "num mundo onde todas as imagens de beleza são de jovens, os idosos são também muito bonitos”.

Que o digam as duas mulheres que sorriem para a fotografia, como que a dar as boas-vindas, enquanto que uma vizinha abre a porta ou espreita a uma janela, e um homem, encostado à esquina, fala a quem passa.

“Os lisboetas não passam por aqui, mas os turistas vêm de todo o lado, fazem muitas fotografias, põe-nas nos ‘blogs’ e sim, hoje as imagens são famosas, mas por causa dos turistas”, considerou esta fotógrafa, que gosta de imprimir as suas imagens em madeira, em pedra ou diretamente nas paredes.

Dona Amélia ainda mora na casa onde nasceu e pode atestar esta fama. Umas turistas inglesas levaram fotos da sua foto como recordação e não é que foram mostrá-las precisamente… à sua prima, emigrada em Londres.

“A minha prima nem queria acreditar que era eu. O mundo é mesmo muito pequeno”, salientou.

A fotografia de João Salgado à janela também correu mundo. Aos 82 anos, o Sr. João também já viajou "um bocado" e chegou a viver em Macau, mas agora Lisboa já não é a mesma.

“No meu tempo, havia uma vida muito boa. Lisboa agora está deserta, os prédios estão em decadência. Está tudo a ir abaixo. Não há aquela tranquilidade que havia antigamente”, afirmou.

Mesmo assim, é muito feliz a morar neste bairro “de gente pobre, mas muito boa”, que são "a única família" que tem.

“À noite vamos ali a um clube, que é o ‘Gente Nova’, e aí é que nos divertimos uns com os outros, jogamos às cartas, dominó, snooker…”, contou.

Na velhinha Mouraria, Camilla encontrou “pessoas muito ligadas”. É “uma zona muito pobre, as pessoas moram em casas muito pequeninas e a comunidade está na rua. Todos se conhecem e se uns não aparecem um dia a gente preocupa-se”, disse.

Para já Camilla Watson pensa continuar pela Mouraria e os idosos do beco poderão perdurar nas paredes, mais uma vez com a ajuda dos turistas.

“Recebi na semana passada um email dos EUA de uma senhora a perguntar quanto custa colocar um novo velhote na parede. Eu fiz as contas ao material, disse que o meu trabalho era voluntário, e ela quer pagar por mais quatro pessoas. Eu acho muito giro, porque se calhar conseguimos manter a exposição assim”, contou.

@Lusa

Este artigo foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

Comentários

Critério de publicação de comentários

publicidade

publicidade

publicidade