Numa das tendas às riscas verdes há dois círculos de pessoas. Frente a frente, os que estão no círculo de fora olham para os que estão no círculo de dentro, e vice-versa. Estão todos de mãos dadas. Caminham lentamente, no sentido dos ponteiros do relógio. É então que o professor diz: «Agora parem e abracem a primeira pessoa que virem à vossa frente. Não tenham vergonham. Abracem-na mesmo.»
A aula de Abraçoterapia é uma das mais concorridas do festival Andanças. Quem já conhece as edições anteriores espalha a palavra. E avisa: aqui não pode haver inibições. Tal como em outras aulas como os Encontros do Umbigo ou a Dança dos Afectos, também muito populares. No Andanças, o espírito é outro.
Não há grandes marcas envolvidas nem bandas cabeças de cartaz com pedidos excêntricos. Neste festival há tendas onde se dança de manhã à noite. Já na sua 13ª edição, o Festival Internacional de Danças Populares (Andanças) oferece mais de 50 estilos de dança diferentes que vão dos Pauliteiros ao Canizade (dança cabo-verdiana). A PédeXumbo (Associação para a Promoção de Música e Dança) é a responsável pela organização.
O programa de uma semana de Andanças é uma grelha densa, que mistura danças de todo o mundo e o difícil, para os participantes, é mesmo escolher. Com sete tendas a «dançar» em simultâneo, as aulas começam às 9 da manhã com uma oferta relaxada: Yoga, Pilates, Massagem Tailandesa. Por volta das 11 da manhã, o calor aperta e o ritmo acelera: entram em palco danças como as Sevilhanas, Andinas, Havaianas, Forró ou Baile Balcânico. Da parte da tarde, as aulas começam às 15h30 e prolongam-se até às 20h. À noite, não se pára: os bailes que animam o recinto servem para pôr em prática o que se aprendeu ao longo do dia.
Um festival que quer ser diferente
Inspirado noutros festivais que se realizam na Europa, como «Le Grand Bal de L’Europe» em França, o Andanças tem conquistado fãs de ano para ano. Depois da primeira edição em Évora (1996-Teatro Garcia de Resende), onde o festival contou com pouco mais de 300 participantes ao longo de três dias, o Andanças mudou-se para o Maciço da Gralheira, onde se realizaram duas edições na Fraguinha.
Em 1999, o festival encontrou a morada onde está até hoje: a aldeia de Carvalhais em São Pedro do Sul. O Centro de Promoção Social de Carvalhais serve de base ao festival, oferecendo o espaço e as infraestruturas, como a cantina.
Partindo da dança, o festival Andanças quer sobretudo ser um festival diferente, onde é possível levar a família (a «Casa dos Sonhos» cuida dos mais novos enquanto os pais dão um pezinho de dança, e o parque de campismo tem uma zona calma), dançar, passear (organizam-se «Andamentos» pela serra) e cultivar uma atitude ecológica. Neste festival são todos bem vindos menos o plástico.
A «caneca Andanças»
A já famosa «caneca Andanças» é hoje um símbolo do festival: custa 1 euro, mas o valor é devolvido se o participante entregar a caneca no final. Até ao ano passado ainda se vendiam bebidas em copos de plástico, mas este ano o único plástico a entrar no recinto é o das garrafas de água que os participantes decidam levar. Ainda assim, a organização pede a todos que reutilizem a garrafa aproveitando a água da serra disponível em pontos de água que se multiplicam pelo recinto.
Já na cantina, ser ecológico permite poupar: o desconto é de 50 cêntimos para quem levar os seus próprios pratos e talheres, que podem ser lavados no lava-louças comunitário e guardados no Pratário entre refeições. Quem quiser arriscar, pode sempre participar no workshop de contrução de fornos solares e testá-lo à hora de almoço.
Os voluntários
A par da equipa que organiza e produz o festival, a base do Andanças está nos voluntários. Por 4 horas de trabalho diário, o bilhete sai a custo zero. Num dia lava-se loiça, no outro controla-se as entradas ou vendem-se senhas de refeição. O importante é ter ainda tempo para dançar. E é nos mais de mil voluntários do Andanças que se encontra o espírito do festival: dar para receber.
Texto e Fotos: Vera Moutinho@