08 de Agosto de 2008, 16:05

Festival Andanças - Muita dança e a revolução da caneca

AndançasNuma das tendas às riscas verdes há dois círculos de pessoas. Frente a frente, os que estão no círculo de fora olham para os que estão no círculo de dentro, e vice-versa. Estão todos de mãos dadas. Caminham lentamente, no sentido dos ponteiros do relógio. É então que o professor diz: «Agora parem e abracem a primeira pessoa que virem à vossa frente. Não tenham vergonham. Abracem-na mesmo.»

A aula de Abraçoterapia é uma das mais concorridas do festival Andanças. Quem já conhece as edições anteriores espalha a palavra. E avisa: aqui não pode haver inibições. Tal como em outras aulas como os Encontros do Umbigo ou a Dança dos Afectos, também muito populares. No Andanças, o espírito é outro.

Não há grandes marcas envolvidas nem bandas cabeças de cartaz com pedidos excêntricos. Neste festival há tendas onde se dança de manhã à noite. Já na sua 13ª edição, o Festival Internacional de Danças Populares (Andanças) oferece mais de 50 estilos de dança diferentes que vão dos Pauliteiros ao Canizade (dança cabo-verdiana). A PédeXumbo (Associação para a Promoção de Música e Dança) é a responsável pela organização.

O programa de uma semana de Andanças é uma grelha densa, que mistura danças de todo o mundo e o difícil, para os participantes, é mesmo escolher. Com sete tendas a «dançar» em simultâneo, as aulas começam às 9 da manhã com uma oferta relaxada: Yoga, Pilates, Massagem Tailandesa. Por volta das 11 da manhã, o calor aperta e o ritmo acelera: entram em palco danças como as Sevilhanas, Andinas, Havaianas, Forró ou Baile Balcânico. Da parte da tarde, as aulas começam às 15h30 e prolongam-se até às 20h. À noite, não se pára: os bailes que animam o recinto servem para pôr em prática o que se aprendeu ao longo do dia.

Um festival que quer ser diferente

Aula de funk no AndançasInspirado noutros festivais que se realizam na Europa, como «Le Grand Bal de L’Europe» em França, o Andanças tem conquistado fãs de ano para ano. Depois da primeira edição em Évora (1996-Teatro Garcia de Resende), onde o festival contou com pouco mais de 300 participantes ao longo de três dias, o Andanças mudou-se para o Maciço da Gralheira, onde se realizaram duas edições na Fraguinha. 

Em 1999, o festival encontrou a morada onde está até hoje: a aldeia de Carvalhais em São Pedro do Sul. O Centro de Promoção Social de Carvalhais serve de base ao festival, oferecendo o espaço e as infraestruturas, como a cantina.

Partindo da dança, o festival Andanças quer sobretudo ser um festival diferente, onde é possível levar a família (a «Casa dos Sonhos» cuida dos mais novos enquanto os pais dão um pezinho de dança, e o parque de campismo tem uma zona calma), dançar, passear (organizam-se «Andamentos» pela serra) e cultivar uma atitude ecológica. Neste festival são todos bem vindos menos o plástico.

A «caneca Andanças»

Caneca do festival Andanças, 2008A já famosa «caneca Andanças» é hoje um símbolo do festival: custa 1 euro, mas o valor é devolvido se o participante entregar a caneca no final. Até ao ano passado ainda se vendiam bebidas em copos de plástico, mas este ano o único plástico a entrar no recinto é o das garrafas de água que os participantes decidam levar. Ainda assim, a organização pede a todos que reutilizem a garrafa aproveitando a água da serra disponível em pontos de água que se multiplicam pelo recinto.

Já na cantina, ser ecológico permite poupar: o desconto é de 50 cêntimos para quem levar os seus próprios pratos e talheres, que podem ser lavados no lava-louças comunitário e guardados no Pratário entre refeições. Quem quiser arriscar, pode sempre participar no workshop de contrução de fornos solares e testá-lo à hora de almoço.

Os voluntários

A par da equipa que organiza e produz o festival, a base do Andanças está nos voluntários. Por 4 horas de trabalho diário, o bilhete sai a custo zero. Num dia lava-se loiça, no outro controla-se as entradas ou vendem-se senhas de refeição. O importante é ter ainda tempo para dançar. E é nos mais de mil voluntários do Andanças que se encontra o espírito do festival: dar para receber.

Texto e Fotos: Vera Moutinho@

Este artigo foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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