A própria evoução demográfica e da medicina, afirma Germano de Sousa, obriga o Estado a repensar os fundamentos do SNS. "Vai ser muito difícil ao Estado, como o conhecemos, dar cuidados de saúde gratuitos a toda a gente”. Por várias razões, sendo a principal o envelhecimento da população: “nos anos 30 deste século vamos ter uma população com mais de 65 anos 10 a 12% superior ao que temos agora”. Precisamente a população que requer maiores cuidados de saúde e que, em virtude da própria evolução civilizacional, os exigirá, até porque a medicina e a tecnologia permitem cada vez mais novas terapêuticas. “Vai ser também mais caro colocá-las ao serviço de todos ou então temos uma saúde a duas velocidades - o trivial para toda a gente e o bom e fino para quem puder pagar”.
Portugal não pode suportar 10 faculdades de medicina
A formação de novos médicos é outro dos temas que merece de Germano de Sousa um olhar critico. Cita um estudo realizado pelos professores Alberto Amaral, António Rendas e João Lobo Antunes como ponto de partida da sua tese: “Se se aumentasse o número clausus nas faculdades existentes à época do estudo, que eram 5, resolvíamos facilmente os problemas de formação de médicos para os próximos anos”. A decisão de construir mais quatro faculdades de medicina e ainda uma eventual quinta faculdade na Madeira é duramente criticada pelo ex-bastonário, nomeadamente pelo movimento paralelo de contratação de médicos no estrangeiro. “Neste momento estamos a receber 1700 estudantes de medicina que só começam a ser especialistas a partir de 2016. Não percebo, porque se fez a Faculdade de Medicina de Aveiro e a Faculdade de Medicina do Algarve”.
Os estudos realizados em Inglaterra sobre os rácios sustentáveis de faculdades de medicina por número de habitantes concluíram que o valor equilibrado é de uma universidade por cada dois milhões de habitantes. “Como é que chegaram a estas conclusões? É que sabem que uma boa faculdade de medicina precisa de muito dinheiro para investigação e laboratórios, para além de inteligência médica com capacidade para ensinar”, afirma. Razões pelas quais considera desproporcionado o investimento que se vez na abertura de novas escolas como resposta a um momento, que define como “limitado” no tempo, em que em virtude da transição de gerações existia falta de médicos. “Somos 10 milhões em Portugal. Tinhamos 5 faculdades, criou-se mais uma na Beira, outra no Minho, agora Aveiro e Algarve, são 9 e antecipa-se outra na Madeira. Uma para cada milhão de portugueses”.
O papel da Ordem
Neste contexto de mudanças sociais e económicas, a missão do actual bastonário dos médicos não é fácil, opina Germano de Sousa. “Tem três tarefas difíceis: saber dar confiança à classe médica que precisa de reencontrar orgulho na sua profissão, retomar com pujança o ensino médico que se fazia dentro dos hospitais e preocupar-se com um outro tipo de medicina, que não é estatal, é privada, e exigir que se dê viabilidade também a esta medicina”.
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@Rute Sousa Vasco