Jessica Antunes, de 13 anos, a frequentar o 8.º ano, ouviu dos avós as primeiras palavras em minderico, com que agora constrói frases e escreve composições na sala de aula.
“As coisas são totalmente diferentes do português”, disse à agência Lusa a adolescente, residente na freguesia, admitindo que é “uma língua interessante”, embora “difícil”, que deseja continuar a aprender.
Este é, também, o objetivo da coordenadora da escola, Dulce Santos, que acredita ser possível continuar a ensinar o minderico se a adesão dos alunos se mantiver.
“A maioria está recetiva e gosta”, declarou, considerando que a justificação pode ser encontrada no facto dos alunos serem de Minde, mas também porque em casa “já ouviram falar do minderico”.
A circunstância de ser uma “novidade” na escola ajuda, igualmente, a despertar o interesse dos estudantes, reconheceu Dulce Santos, acrescentando outro fator a favor da aprendizagem: “A língua minderica acaba por ser curiosa, cada termo tem a sua explicação assente em figuras características e situações de Minde”.
Se a recetividade dos alunos continuar, a responsável garante que vai pedir ao Ministério da Educação autorização para lecionar esta disciplina como oferta de escola. “A avaliar pela adesão que está a ter atualmente, penso que teria sucesso”, afirmou a coordenadora da escola, onde o minderico já foi adotado na identificação do estabelecimento e das salas ou na tabela de preços do bar.
Língua ameaçada não é uma língua morta
O trabalho de revitalização do minderico começou em março de 2009 e é liderado pela linguista Vera Ferreira, que trabalha em duas universidades alemãs e no Centro Interdisciplinar de Documentação Linguística e Social (CIDLeS), em Minde.
À Lusa, Vera Ferreira explicou que o projeto, com financiamento da Fundação Volkswagen no âmbito do Programa de Documentação de Línguas Ameaçadas, tem como “grande objetivo” que a “opinião pública conheça o minderico enquanto realidade linguística em Portugal”.
“O nosso objetivo é também o reconhecimento do minderico como língua minoritária e língua ameaçada”, salientou a docente, adiantando que o minderico é uma língua, embora não reconhecida politicamente, “porque tem todas as características que a caracterizam como tal”.
Exemplo disso é a “transmissão geracional, a inteligibilidade, o caráter emotivo, as características gramaticais ou a variedades de registos, formal, informal, escrito ou oral”, anotou.
Reconhecendo que a “realidade geográfica” de Minde, cercada por serras, potenciou o desenvolvimento da língua, a docente adiantou que o minderico começou por ser usado pelos comerciantes de têxteis nas feiras, estendendo-se ao meio familiar e à comunidade.
“Uma língua ameaçada não significa que é uma língua morta e o facto de que a língua é usada é o facto de que surgem novos vocábulos”, sustentou, apontando os termos para computador (“bruxo”), telemóvel (“xambel de estribo”) ou internet (“tece-tece do bruxo”).
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