Partilhando a tradicional visão conservadora no domínio da política externa britânica, Cameron pretende revitalizar a ‘Special Partnership’ com os Estados Unidos, nos últimos anos sob constante tensão e ataque por parte da sociedade civil, em parte devido às acusações de subserviência perante a vontade norte-americana.
Com quase dez mil soldados ainda destacados no Afeganistão, é curioso verificar como este tópico foi cuidadosamente evitado durante toda a campanha, com a excepção do compromisso público dos três candidatos de se iniciar a retirada militar assim que possível. Será à luz deste contexto que terão lugar os primeiros contactos do novo governo britânico com a Administração Obama.
A aparente necessidade de uma futura coligação obriga Cameron a ter em conta as posições nesta área do principal candidato a parceiro de governo, os Liberais Democratas. Ora a clara posição europeísta de Nick Clegg – em contraste com a tradicional atitude britânica face ao Velho Continente – irá sem dúvida chocar com a visão eurocéptica de Cameron. Por exemplo, as ameaças de revisão do Tratado de Lisboa por parte da facção mais conservadora dos Tories poderão tornar-se difíceis de ultrapassar.
Clegg, o “ingénuo”
Por outro lado, Clegg é um firme defensor da reforma do sistema de dissuasão nuclear Tridente, considerando-o desajustado da actual realidade internacional e prejudicial aos actuais esforços globais de redução dos arsenais nucleares. Cameron, por sua vez, não poderia discordar mais, tendo inclusive durante a campanha e em conjunto com Gordon Brown salientado a ‘ingenuidade’ de Clegg.
O único ponto relevante que Cameron e Clegg parecem ter em comum no domínio da política externa britânica parece ser o firme propósito de combater as alterações climáticas e de reformar as instituições internacionais
Naturalmente, as campanhas eleitorais tendem a acentuar as divergências em detrimento dos pontos de convergência. Isto dito, apenas no decorrer das hipotéticas negociações com vista a uma possível coligação é que será possível verificar quais os compromissos que cada interveniente estará disposto a fazer, de modo a proporcionar ao Reino Unido uma política externa estável e coerente.
@Pedro Seabra
Investigador do Instituto Português de Relações Internacionais e Segurança