02 de Dezembro de 2009, 12:30

Marilyn Manson no Campo Pequeno: O brilho de uma estrela (de)cadente

Os seus dias de glória podem ter ficado arrumados nos anos 90, mas nem por isso Brian Warner (mais conhecido como Marilyn Manson) deixa de ter seguidores - tanto fiéis resistentes da década passada como uma nova colheita de adeptos adolescentes.

Na noite de ontem, no Campo Pequeno, a moldura humana que o observou revelou esta heterogeneidade, tanto a nível etário como visual - muitos dos espectadores da plateia, mais jovens, elegeram o negro como cor de eleição, os das bancadas nem tanto.

Na era dos marcantes "Antichrist Superstar" (1996) e "Mechanical Animals" (1998), ainda os seus melhores discos, o autor de "The Beautiful People" seria presenteado com uma casa cheia. E se ontem não foi o caso, já que a sala não esgotou, pelo menos estava bem composta e, mais importante, o público reagiu bem ao que se passou no palco.

Um cenário modesto mas eficaz

Ao contrário dos espectáculos de outros nomes internacionais que têm passado por cá - como os Depeche Mode ou os Muse -, o de Manson contou com uma produção relativamente modesta, dispensando ecrãs mas não descurando a componente cénica.

O arranque deu-se, aliás, com descida de um pano que tapava todo o palco, logo a evidenciar a faceta teatral do concerto. Esta não foi, ainda assim, tão dominante como talvez se esperaria, embora o mestre de cerimónias ainda tenha queimado uma Bíblia, lançado balões (pretos, claro) ou passeado por um palco nebuloso com uma lanterna e, logo ao início, com lasers disparados pelos dedos.
O cenário apresentou ainda três variações, indo das imagens de dólares às de protestos inscritos num muro e terminando com o da bandeira dos EUA (ou não fosse a pátria de Manson um dos principais temas das suas canções). Longe de arrebatadoras, estas ideias visuais revelaram-se plenamente eficazes na conjugação com as atmosferas densas das canções.

Acelerar até ao final

"The High End of Low", o novo e sétimo álbum de originais, foi o ponto de partida de um concerto que não ignorou (nem podia) peças importantes de registos anteriores.

Arrancando logo de forma estridente e pujante, a actuação saiu-se bem nos temas novos, caso do cru "Pretty As A Swastika", do desolado "Devour" (com um belo crescendo de intensidade) ou de "Four Rusted Horses", mais pesado ao vivo do que em disco.
Mas destes foi "We're From America" que deixou o público em ponto de ebulição, resultando bem melhor do que no álbum, efeito para o qual não terá sido alheia a presença vertiginosa da guitarra de Twiggy Ramirez (músico que voltou a juntar-se a Manson para o novo disco e teve direito a um episódio de homenagem no concerto).

Já no final a visceralidade reforçou-se ainda mais, numa sequência imbatível que recuperou "The Dope Show", "Rock is Dead" (a gerar uma febre saltitante logo aos primeiros segundos), "Sweet Dreams", "Rock'n'Roll Nigger" e, claro, "The Beautiful People" (servida com confetti no breve encore), consolidando a força de um alinhamento pouco versátil mas de assinalável coesão (apenas o díptico "Coma White/Coma Black" deu descanso a efusivos momentos de descarga).

Canções fortes e palavras desinspiradas

Longe da carga provocatória de outros tempos, Manson não deixou de interagir com o público, direccionando-lhe o microfone em várias ocasiões e aproximando-se dos espectadores das primeiras filas.
Das palavras, contudo, pouco houve a reter, já que não se mostraram particularmente críticas ou perturbantes, ficando-se por uma recomendação sarcástica (?) sobre as drogas (algo parecido com "Miúdos, não consumam drogas porque acabam num palco a fazer figuras tristes à frente de milhares de pessoas (...) e conseguem ter todos os rapazes ou raparigas que desejarem, dependendo do vosso gosto").

De qualquer forma, este discurso pouco sumarento e a curta duração do concerto (quase hora e meia) não abalaram muito a solidez do concerto de uma estrela que, mesmo (de)cadente, ainda brilha o suficiente.

Texto e fotos @Gonçalo Sá

Videoclip de "The Beautiful People"

Videoclip de "Rock is Dead"

Mais vídeos de Marilyn Manson

Este artigo foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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