Niemeyer, uma vida fora da linha reta

Chamam-lhe o arquiteto da invenção, da utopia, da rebeldia, da arte. “Não há razão para a gente ficar na linha reta”, diz Oscar Niemeyer.

Nas entrevistas que foi dando ao longo da longa vida, Niemeyer explica como começou a sua caminhada na arquitetura. A culpa foi do gosto pelo desenho. Nascido no Rio de Janeiro, em 1907, nada lhe dava mais prazer do que jogar à bola na rua, ir à praia…e desenhar.

No site da Fundação Niemeyer a história é contada na primeira pessoa: “Lembro-me que ficava com o dedo no ar desenhando. Minha mãe perguntava: 'o que está fazendo, menino?' 'Desenhando', respondia com a maior naturalidade. Realmente, fazia formas no espaço, formas que guardava de memória, corrigia e ampliava, como se  estivesse mesmo a desenhá-las.”

Foi o gosto pelo desenho que o levou à Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, de onde saíu em 1934 com o diploma de engenheiro arquiteto. Dois anos depois, já trabalhava no escritório de Lúcio Costa, integrando a equipa que projetou o edifício do Ministério da Educação, no Rio de Janeiro, um dos grandes marcos da arquitectura brasileira.

Foi através de Lúcio Costa que Niemeyer conheceu o famoso arquiteto franco-suíço Le Corbusier, que haveria de ser uma forte influência no brasileiro, pelo menos nos primeiros trabalhos de Oscar Niemeyer, e com quem teria oportunidade de colaborar. Em 1939, também com Lúcio Costa, viajou para Nova Iorque, para projetar o Pavilhão do Brasil na Feira Mundial.

Em 1940 , Oscar Niemeyer recebeu o convite que viria mais tarde a culminar na construção da cidade de Brasília. O político Juscelino Kubitschek pediu ao arquiteto para projetar o Conjunto da Pampulha - obra que até hoje considera uma das suas favoritas e onde diz ter começado a explorar a ideia de linha curva nos edifícios.

Brasília, obra de uma vida

Em 1955, Niemeyer funda a revista Módulo, no Rio de Janeiro, e assume a chefia do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da NOVACAP, encarregada da construção de Brasília. Juscelino Kubitschek, eleito presidente da República em 1956, queria construir uma nova capital no Planalto Central do país e pôs nas mãos de Niemeyer a organização de um concurso para a escolha do plano piloto de Brasília, ganho por Lúcio Costa.

Em tempo recorde, Oscar Niemeyer projetou o Palácio da Alvorada, o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional, a catedral, os edifícios dos ministérios, além de edifícios residenciais e comerciais da nova capital, inaugurada em 21 de
abril de 1960.

No início dos anos 60, foi nomeado coordenador da Escola de Arquitetura da recém-fundada UnB (Universidade de Brasília). Em 1964, foi surpreendido pela notícia do golpe militar de 31 de março no Brasil. De regresso ao país, foi chamado a depor no DOPS - Departamento de Ordem Política e Social, um dos principais órgãos de repressão política da ditadura militar.

Em 1965, juntamente com outros 200 professores, Niemeyer deixou a UnB, em protesto contra a nova política universitária do governo. Praticamente impedido de trabalhar no Brasil, o arquiteto mudou-se para Paris, onde projetou a sede do Partido Comunista Francês. Além de projetos em Itália (sede da Editora Mondadori) e na Argélia (Universidade de Constantine e Mesquita de Argel), acompanhou uma exposição sobre a sua obra na Europa.

Em 1970, em protesto contra a guerra do Vietname, desligou-se da Academia Americana de Artes e Ciências. Em 1990 deixou o Partido Comunista Brasileiro.

As obras e os prémios

Oscar Niemeyer recebeu inúmeros prémios, entre eles o famoso prémio Pritzker de Arquitetura, mas também o Leão de Ouro da Bienal de Veneza por ocasião da VI Mostra Internacional de Arquitetura, a Royal Gold Medal do Royal Institute of British Architects, o Prémio UNESCO 2001, na categoria Cultura, os títulos de Arquiteto do Século XX, do Conselho Superior do Instituto de Arquitetos do Brasil e os títulos de Doutor Honoris Causa das Universidades de São Paulo e de Minas Gerais.

A inovação dos seus edifícios causou por vezes estranheza. Entre os muitos edifícios que Niemeyer desenhou está a Igreja de São Francisco, cuja estrutura radical atrasou a sua consagração até 1959, embora a obra tivesse sido terminada em 1943.

Em 1971, lança-se em nova aventura e lança, em França, com a colaboração de Anna Maria Niemeyer, a "linha on" de mobiliário, que desenhou , numa primeira incursão no campo de mobiliário industrial.

Também na literatura deixou a sua marca. Na verdade, cada projeto de Niemeyer é sempre precedido de um texto explicativo. Diz o arquiteto que se não conseguisse argumentar a favor do seu desenho, então voltava à estaca zero. Em 1998, com 91 anos, publica então o livro de memórias “As curvas do tempo”. Niemeyer, lê-se no site da Fundação com o seu nome, queria fazer um livro que o explicasse: “Um livro que mostrasse ter eu sempre encontrado tempo para pensar maior, sentir como a vida é injusta, como nossos irmãos mais pobres são explorados e esquecidos.”

No ano seguinte, nova façanha. Publica, no Brasil, a sua primeira obra de ficção, “Diante do nada”, a história de um jovem que se preocupa com o mundo e com a luta do ser humano.

Em 2004 enfrenta a morte da esposa, Annita, tendo voltado a casar dois anos depois com Vera Lúcia. Tinha 98 anos. Um ano depois, puseram-se em marcha as comemorações dos seus 100 anos. Em todo o Brasil foram realizadas exposições, eventos e homenagens em comemoração do centenário de nascimento do arquiteto.

Entre diversas condecorações, recebeu do presidente Lula a medalha do Mérito Cultural, um reconhecimento à sua contribuição para a cultura brasileira, e, em França, o título de Comendador da Ordem Nacional da Legião de Honra, concedido pelo embaixador de França no Brasil.

Em 2009, o homem que já tinha alcançado quase tudo vê-se numa cama de hospital durante dois meses. Nesse tempo escreveu uma letra de uma música de samba, acompanhado por uma melodia criada pelo seu enfermeiro. Pela mão do neto chegou à fala com o músico brasileiro Edu Krieger, que finalizou a canção de protesto com toque de esperança que viria a chamar-se “Tranquilo da vida”.

“Da minha favela eu vejo os granfinos/ Morando na praia, de frente pro mar/ Não devemos culpá-los, tão prestigiados/ Que um dia entre nós vão voltar a morar”. A letra é um reflexo de Niemeyer, o homem que aproveita os prazeres simples da vida mas que está atento às injustiças do mundo.

Artista mais do que arquiteto, tem a sua marca impressa um pouco por todo o mundo, com mais de 600 edifícios inovadores, rebeldes, sensuais, provocantes. E todos podem disfrutar disso. Ricos e pobres, porque, como dizia Oscar, se os ricos são aqueles que compram a arquitetura, a verdade é que a sua obra - aquela que faz parar qualquer um com ar de espanto e deleite -  está acessível a todos.

A 2 de novembro, Oscar Niemeyer foi internado, pela terceira vez, devido a uma desidratação. Desde então, o seu estado de saúde foi-se agravando. Precisamente 10 dias antes de completar 105 anos de vida, morreu o último grande arquiteto do século XX.


@Vera Moutinho