Obama insiste em mudanças e define a criação de empregos como prioridade para 2010

No seu primeiro discurso do Estado da União, o presidente americano, Barack Obama, afirmou que a criação de empregos será a sua principal prioridade em 2010, numa tentativa de recuperar a confiança da população, após seu primeiro ano na Casa Branca.

Obama admitiu que o seu governo sofreu alguns precalços ao longo de 2009 - alguns merecidos, afirmou. Falando num tom confiante prometeu: "nós não vamos desistir. Eu não desisto, vamos começar do zero", referindo-se às diferentes crises que enfrenta dentro e fora dos Estados Unidos.

Num discurso que durou cerca de 68 minutos, pontuado por aplausos, o presidente expôs os seus planos e prioridades para 2010, pediu a colaboração entre republicanos e democratas para avançar com as reformas e dedicou grande parte do tempo à economia e às questões domésticas, afirmando que a sua missão agora é ajudar a classe média afectada pela crise.

Obama fez ainda uma avaliação da sua própria actuação como chefe do governo, que num ano deixou de ser aprovada pela maioria dos americanos. A popularidade de Barack Obama recuou para níveis preocupantes, estando agora abaixo dos 50%. No entanto, pediu apoio para levar adiante iniciativas politicamente arriscadas, como a reforma da saúde.

"Fiz a minha campanha com uma promessa de mudança - uma mudança na qual podemos acreditar, dizia o slogan", disse Obama, evocando os dias da sua histórica campanha eleitoral.

"Neste exacto momento, eu sei que muitos americanos não têm certeza se ainda podem acreditar em mudanças - ou, pelo menos, se eu serei capaz de fazê-las", estimou, acrescentando que "as mudanças não vieram tão rápido como deviam".

No entanto, indicou nunca ter estado "tão esperançoso sobre o futuro dos EUA quanto estou hoje. Apesar das nossas dificuldades, a nossa união é forte. Nós não desistimos. Nós não deixamos o medo ou as divisões deprimirem o nosso espírito".

Obama listou uma série de propostas e iniciativas, mas o ambiente político nos Estados Unidos este ano - com as eleições legislativas de Novembro - é tão tenso, que dificilmente será possível contar com o apoio necessário para levar adiante tantas promessas.

Referindo-se à polémica em torno da reforma do sistema de saúde que tenta aprovar no Congresso - uma semana depois de ter perdido a maioria democrata no Senado -, Obama prometeu não "abandonar" a sua luta para concretizar a iniciativa. "Depois de quase um século de governos democratas e republicanos, estamos muito próximos de conseguir" aprovar a reforma da saúde.

Ao mesmo tempo, afirmou que as acções do seu governo evitaram que o país se afundasse numa depressão semelhante à da década de 30. "Quando cheguei ao governo, no meio desta crise, percebi que se não agíssemos rapidamente poderíamos enfrentar outra recessão. E nós agimos imediatamente", disse Obama. "Neste momento, há dois milhões de americanos a trabalhar, que não estariam a trabalhar" se não fosse pelo pacote aprovado pelo governo para reactivar a economia.

Obama também falou sobre o resgate de vários bancos de investimento, responsabilizados pelo quase colapso do sistema financeiro. "A nossa tarefa mais urgente ao assumir o governo era ajudar os mesmos bancos que criaram esta crise", disse. "Eu odiei fazê-lo, todos odiaram, mas quando eu concorri à presidência, prometi que não faria apenas o que fosse popular, mas também o que fosse necessário".

O presidente americano pediu ao Congresso que aprove "sem demora" uma outra lei, anunciada na noite de quarta-feira, para estimular a criação de empregos. Obama afirmou que se o projecto apresentado não for forte o suficiente para recuperar o mercado de trabalho - que perdeu sete milhões de empregos nos últimos dois anos - irá ser vetado até que o texto esteja de acordo com as necessidades do país.

"Os empregos têm de ser a nossa prioridade número um em 2010", declarou Obama, anunciando que destinará 30 mil milhões de dólares do dinheiro devolvido pelos bancos resgatados pelo governo no auge da crise, em 2008, para financiar o crédito para as pequenas empresas, incentivando assim a criação de novos postos de trabalho.

Obama disse também que o país precisa de duplicar o volume de exportações nos próximos cinco anos, o que abriria cerca de dois milhões de novas vagas. No entanto, entre tantos pedidos feitos ao Congresso, a análise de eventuais novos acordos comerciais não estava entre eles.

Obama só falou de política externa nos últimos minutos do seu discurso, claramente dominado pelas preocupações económicas do governo, e não entrou em muitos detalhes. Rapidamente, alertou que o Irão enfrentará "crescentes consequências" se insistir em avançar com o seu programa nuclear.

Além disso, indicou que a Coreia do Norte estava cada vez mais isolada devido à insistência de manter armas nucleares.

Obama pediu à população que apoie as forças dos Estados Unidos no Afeganistão e destacou que as tropas de combate americanas que ainda estão no Iraque voltarão para casa até o fim de Agosto de 2010.

Numa outra tentativa de recuperar o espírito de renovação que marcou a sua campanha, o presidente americano afirmou que trabalharia com o Congresso para anular a lei que impede homossexuais de assumirem a sua orientação sexual ao serviço o exército.

Procurando inspiração na história, falando sobre união e o futuro, Obama fez um apelo a democratas e republicanos que deixem de lado as disputas mesquinhas da política, "resolvam as suas diferenças" e colaborem para ajudar o país a atravessar "tempos difíceis". "Estamos aqui para servir os nossos cidadãos, e não as nossas ambições", destacou o presidente.

"Os Estados Unidos venceram porque escolhemos avançar como uma nação, como um povo. Mais uma vez, estamos a ser testados. E mais uma vez, temos de responder ao chamado da história", declarou. "Vamos mostrar ao povo americano que podemos fazer isto juntos".

Obama também dedicou o seu discurso à questão do gigantesco déficit interno americano, prometendo congelar os gastos do governo não relacionados com a segurança por três anos a partir de 2011.

"Como uma família que está a passar por dificuldades, vamos investir no que é necessário e sacrificaremos o que for possível", comparou. "Recuso-me a passar este problema para outra geração de americanos".

Ao longo de todo o discurso, Obama enfatizou a sua intenção de "aliviar o fardo da classe média", extremamente atingida pela crise, prometendo cortar mais impostos e relembrando os cortes que já foram aprovados.

"Continuaremos a cortar nos impostos para as famílias de classe média - mas não para as companhias petrolíferas, não para os bancos de Wall Street, não para quem ganha mais de 250 mil dólares por ano. Não podemos pagar por isso", declarou.

SAPO/AFP