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Estagiar sem receber, estagiar passando recibos verdes ou estagiar em part-time e sem horário fixo. Foram estas as condições em que o mercado de trabalho recebeu Diogo, Joana e Andreia. Pouco sabem sobre o que lhes reserva o futuro, mas, regra geral, mantém-se optimistas.
A 25 de Fevereiro José Sócrates prometia, a par de cinco novas medidas de integração dos jovens no mercado de trabalho, criar mais 13.000 estágios remunerados. Entre estas medidas eram de destacar a integração dos estagiários na segurança social, permitindo-lhes iniciar a sua carreira contributiva mais cedo, e acabar com estágios profissionais não remunerados. Seis dias mais tarde, Helena André, Ministra do Trabalho explicava que, segundo o decreto-lei aprovado no mesmo dia, todos os estágios extracurriculares iriam passar a ser obrigatoriamente remunerados.
Uma semana antes o SAPO Notícias saiu à rua para perceber em que condições são recebidos os recém-licenciados no mundo do trabalho.
Andreia Santos, com 22 anos, licenciou-se em enfermagem o ano passado e, desde então, procurou um trabalho em todos os hospitais de Lisboa e várias clínicas. Foi com a saudade dos tempos de escola que nos recebeu na Associação de Estudantes, decorada pela sua turma, refúgio dos momentos de lazer que mediavam os o tempo entre as aulas e os estágios curriculares.
Uma das particularidades do seu curso é ter uma vertente muito prática. Todos os anos, os alunos são convidados a ficar um mês num serviço, acompanhados de um enfermeiro residente, para aprender as lides do ofício. Actualmente, Andreia, está empregada em part-time num clínica privada e passa recibos verdes. Não é a situação ideal, mas recusa-se a estagiar noutro local de graça e questiona: “Se eu estou lá a trabalhar à borla, para quê pagara a alguém para fazer o que eu lá estou a fazer”. Como existem vários enfermeiros na sua clínica, não tem horário fixo e não trabalha todos os dias da semana. Quando precisam dela, ligam e ela coloca-se a caminho.
Diogo, tem 21 anos e não pensa como a enfermeira Lisboeta. Veio de Torres Vedras para Lisboa estudar e mantém, com a ajuda dos pais, um apartamento com amigos junto ao estádio da Luz. Tirou Ciência Política, no entanto, está a estagiar numa redacção. Goza de alguma liberdade de horário, mas não tem qualquer ajuda de custo. Olhando para trás admite que, se fosse hoje, pensaria duas vezes antes de escolher uma licenciatura sem avaliar a empregabilidade do curso. Mantendo a ânimo, decidiu seguir para um Mestrado em economia, na expectativa que isso lhe permita encontrar emprego em outras áreas.
Empenho procura-se
Foi também com um estágio não remunerado numa rádio local que Joana Dionísio, , de 21 anos, começou. Em pouco tempo comunicou que estava de saída porque encontrou uma publicação online que lhe dava ajudas de custo, cerca de 250 euros. Três meses mais tarde decidiram ficar com ela e passou a receber o dobro.
Uns redondos 500 euros, sobre os quais terá de descontar, não lhe permitem comprar o carro por que tanto anseia, nem conseguir a sua independência. Apesar de tudo, Joana acredita que teve sorte em conseguir estar nestas condições poucos meses depois de ter saído da faculdade. Com um olhar optimista sobre o futuro garante que esta situação é fruto de uma difícil conjuntura económica e que, com trabalho e dedicação, vai conseguir conquistar uma melhor posição remuneratória.
Tatiana Canas, editora do Jornal Advocatus, concorda com Joana e garante que além de mostrar empenho “é preciso perceber quais são as principais motivações” do estagiário. No seu caso, tirou um curso de direito e optou mais tarde por trabalhar em jornalismo, ainda que se mantenha ligada à advocacia. Conhecedora do universo dos advogados e da comunicação social, esclarece que foram abertos demasiados cursos, dando a ilusão de que todos se podem licenciar e, por consequência, ter um emprego.
No caso específico dos advogados, Tatiana esclarece que a forma como as sociedades de advocacia estão organizadas não permitem que todos cheguem a sócios, deixando nas estruturas intermédias os 20% melhores advogados que saem das faculdades. O resultado lógico será a formação de várias pequenas sociedades. Tatiana não assume que se tenham formado advogados a mais, mas considera que, no mínimo, estão mal distribuídos pelo país.
Mão de Obra barata
Ricardo Dias, como qualquer recém-licenciado começou a procurar emprego em publicidade assim que terminou os estudos. Num acto de partilha, criou um blog para si e para os amigos onde ia colocando todas as ofertas da sua área. Mais tarde, este blog tornou-se um dos sites mais visitados para quem procura emprego nas áreas de Comunicação e Design: Carga de Trabalhos.
Apesar de não se dedicar à sua gestão em full time, Ricardo afirma com orgulho que, no ano passado, foi capaz de colocar em linha 9300 ofertas na rede. Gosta de acreditar que grande parte dessas vagas foram ocupadas, apesar de receber pouco feed back positivo. Já quando coloca na rede um estágio não-remunerado, chovem emails de desagrado.
Ricardo tenta explicar que estas ofertas também servem a sua função e há quem efectivamente procure estes estágios para experimentar uma área ou mesmo para poder terminar os estudos. No entanto, o gestor admite que “nestes últimos dois anos houve um aumento muito grande em termos de estágios curriculares” e que “há empresas que recorrem constantemente a mão de obra barata, baratíssima”.
Com as novas medidas aprovadas pelo governo a três de Março, as empresas são obrigadas a pagar 419,22 euros aos estagiários e a definir a duração do estágio através da celebração de um contracto escrito. Estas medidas não se aplicam a estágios curriculares (integrados nos cursos) ou a estágios com duração igual ou inferior a três meses.
Outra das opções ao alcance dos estagiários é candidatarem-se aos programas INOV. Estes programas são orientados por diferentes entidades mas têm um objectivo comum: colocar no mercado de trabalho jovens licenciados. A integração é feita através de parcerias entre organismos públicos e empresas, garantindo, assim, a remuneração dos estagiários.
Estágios profissionais com duração superior a três meses passam a ser pagos
Reportagem: Inês Fernandes Alves