Paredes de Coura, dia 4: O melhor guardou-se para o fim

Depois de quatro dias de música, a 17ª edição do Festival Paredes de Coura terminou ontem à beira da explosão. A culpa foi dos suecos The Hives, que se esforçaram para deixar um concerto de boa memória. E não só conseguiram como esmagaram quase todas as actuações dos outros dias.

Ainda o concerto dos Hives não ia a meio quando Pelle Almqvist, o vocalista do quinteto sueco, deixou um aviso aos espectadores do anfiteatro natural de Paredes de Coura, onde disse qualquer coisa como: "Daqui a três músicas vou soltar fogo da boca e incinerar metade do público. A boa notícia é que será a metade que não gosta de rock n' roll".

Felizmente, e para descanso de muitas famílias, não chegou a concretizar o acto, talvez porque quem não gostava de rock n' roll tenha passado a gostar durante a actuação da banda. Ou pelo menos divertiu-se com a atitude tão esgrouviada quanto contagiante de Almqvist, que se encarregou de deixar uma expressão sorridente em grande parte do público - já para não falar dos saltos, mosh ou crowd surfing que também despoletou.

No ano passado, no Coliseu de Lisboa, o vocalista já se tinha mostrado um entertainer com a lição bem estudada, e ontem deixou uma impressão ainda mais positiva. Subiu para cima da bateria, aproximou-se dos espectadores das primeiras filas e não resistiu a meter-se com o público. Incapaz de se manter calado entre as canções, não se envergonhou de pedir mais aplausos e gritos, e tanto uns como outros foram fornecidos sem reservas por uma multidão obediente (e feliz por sê-lo).

A adrenalina propagou-se como uma epidemia durante a hora e meia de intensidade, dominada por um rock musculado que teve em "Walk Idiot Walk", "Hate to Say I Told You So" ou na irresistível "It Won't Be Long" alguns dos maiores momentos de adesão. Apenas "Diabolic Scheme", bela canção de vertigem e desencanto, refreou um pouco os ânimos, mas mostrou que os Hives também podem funcionar bem num registo mais arrastado.

Se em disco a banda soa por vezes demasiado derivativa, ao vivo consegue injectar nas canções uma frescura incrível, e algumas surpresas na actuação também ajudam - como a que surgiu em "You Dress Up For Armageddon", onde o quinteto adoptou uma pose estática repentinamente - e durante longos segundos.

Perto do final, Almqvist disse que queria que o concerto fosse literalmente explosivo - "Colocámos dinamite por todo o recinto", ameaçou. Mais uma vez a ameaça não se confirmou, mas houve uma intensidade quase comparável em "Tick Tick Boom" (com inúmeras palmas a acompanhar o tema) ou na interminável "Return The Favour", já no encore (com o público a gritar e a obrigar a banda a alargar várias vezes a canção). E assim se faz um efervescente concerto rock (sem chegar a incinerar alguém).

O último dia do festival não viveu, contudo, apenas do carisma dos Hives:

Depois de liderar uma das bandas britânicas mais carismáticas da década de 90 (os Pulp), Jarvis Cocker editou nos últimos anos dois álbuns a solo. Ainda nenhum lançou hinos de uma geração como "Common People" ou "Disco 2000", mas não é por isso que o cantor deixa de ter seguidores. E o seu concerto ajudou a perceber porque é que continua a ser alvo de atenção: as canções, sem serem excepcionais, conseguiram imprimir versatilidade a um alinhamento irregular (convincente nos momentos mais incisivos) e a sua postura, espirituosa e irónica, ofereceu algumas considerações com piada (como a defesa do saxofone enquanto instrumento subestimado, incompreendido e mal utilizado).

Antes, pouco depois da noite ter chegado, chegaram também os Howling Bells. O grupo australiano, além de ganhar facilmente o título de banda mais fotogénica do festival, deixou claro que é mais do que um quarteto de meninos (e menina) bonitos.
Pelo contrário, as suas canções, embora irradiem beleza, não têm medo de entrar por domínios mais nebulosos - e daí nascem pequenas pérolas atmosféricas como "Cities Burning Down" ou "Treasure Hunt".
O momento de maior adesão foi, contudo, "Low Happening", óptimo exemplo de indie rock directo tornado ainda melhor quando, antes da canção arrancar e durante o refrão, muitos espectadores gritaram o título a pedido da vocalista.
Além de dona de uma bela voz, Juanita Stein exibiu uma simpatia que levou a que, aos poucos, os Howling Bells fossem conquistando adeptos entre um público inicialmente algo distante. O grupo não chegou a gerar as reacções tão fortes como as dos Hives, embora o interesse moderado mas crescente dos espectadores tenha chegado para Juanita revelar, no final, que este foi o seu cenário e concerto preferido da digressão. Felizmente o prazer não foi todo dela e espera-se que tenha funcionado como incentivo para a banda regressar em breve.

No quarto e derradeiro dia do festival actuaram ainda no Palco Nokia os Right Ons e Foge Foge Bandido. Manuel D'Oliveira Amarte e Mana Calórica passaram pelo Palco Jazz na Relva e, já durante a madrugada, coube a Sizo e Nuno Lopes o encerramento da 17ª edição de Paredes de Coura, já no Palco After Hours.

Ao longo de quatro dias, o festival levou à praia fluvial do Tabuão nomes como Nine Inch Nails, Franz Ferdinand ou Patrick Wolf, todos convincentes cabeças de cartaz. De acordo com a organização, passaram pelo recinto cerca de 23 mil espectadores e para o ano o festival decorre de 28 a 31 de Julho.

Gonçalo Sá

The Hives ao vivo em Paredes de Coura:

Eduardo Santiao e Gonçalo Sá

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