Paredes de Coura, dia 1: A hora do lobo

Na noite de recepção ao campista, ontem em Paredes de Coura, os primeiros concertos do festival foram um bom aquecimento para os próximos dias. Sean Riley and the Slowriders e The Strange Boys animaram a maioria do público e Patrick Wolf comprovou merecer o título de cabeça de cartaz na actuação mais celebrada.

O início do concerto de Patrick Wolf não foi particularmente auspicioso. Os dez minutos de atraso pareceram durar o dobro, com uma multidão impaciente que preenchia um muito concorrido Palco After Hours - e que não demorou a assobiar para que o cantautor britânico chegasse.

Quando Wolf finalmente entrou em palco, os aplausos também não tardaram, mas infelizmente foram acompanhados por um som próximo do sofrível, o que levou a que só nos momentos finais é que o electro de "Vulture" fosse ouvido em condições.

Acompanhado por quatro músicos (baixista, violinista, baterista e manipulador de programações electrónicas), o cabeça de cartaz do primeiro dia do festival apresentou-se com uma imagem andrógina e obtusa q.b., como de resto é habitual.
Com muito eyeliner e roupa preta e branca, Wolf deu seguimento a um arranque atribulado com uma sucessão morna de canções, algumas a caírem para cenários de gosto duvidoso - como os primeiros segundos de "Damaris", com uma aproximação à new age que soa a banda-sonora para um filme algures entre "A Lagoa Azul" e "Duelo Imortal".

Durante cerca de meia hora, o espectáculo não foi por isso muito convincente, mas a meio tudo mudou. A partir de "The Libertine", furacão de sabor celta e uma das melhores (e mais antigas) canções do músico, o concerto ganhou outra intensidade. Esta manteve-se em "The Bachelor", tema-título do seu quarto e novo disco, para o qual Wolf achou bem calçar uns sapatos de salto alto.

A alteração do guarda-roupa não se ficou por aqui, já que no soberbo devaneio punk de "Battle" despiu-se para aparecer só de boxers e uma minúscula t-shirt de alças. Foi também antes dessa canção que se dirigiu ao público para deixar um aviso: "Vou precisar de vocês para esta", misturando-se depois com os espectadores das primeiras filas.

A euforia manteve-se no tema seguinte, "Hard Times", um dos pontos altos do novo disco e também da actuação, onde Wolf combinou mais uma vez a sua óptima voz com um violino enfurecido. O adorno visual escolhido foram plumas pretas, a reforçar a teatralidade de um espectáculo onde, felizmente, a música não ficou à sombra da imagem.

Em momentos anteriores, dedicou "Who Will" a todos os que não têm "amor, sexo e intimidade" e fez votos de que a situação se alterasse ao longo do festival. E fez ainda uma breve passagem por "Gigantic", uma das mais emblemáticas canções dos Pixies, acompanhado por uma guitarra eléctrica - um dos muitos instrumentos que tocou, a par do violino, orgão ou ukelele.

O final de pouco mais de uma hora ficou a cargo de "The Magic Position", single de pop garrida e escolha acertada para fechar em festa uma actuação bipolar, embora entusiasmante. E que deverá ter direito a continuação em breve, já que Wolf anunciou que regressaria a palcos nacionais.

A abrir a noite de recepção ao campista, Sean Riley e os seus Slowriders apresentaram a folk, blues e alternative country de "Only Time Will Tell", o novo disco da banda de Coimbra. Ambientes semelhantes marcaram a actuação dos texanos The Strange Boys, que apesar de alguma redundância e de uma voz limitada também foram bem recebidos por uma considerável multidão.

Hoje, Paredes de Coura recebe os Franz Ferdinand no Palco Nokia, e antes do quarteto escocês contam-se os espectáculos dos Supergrass, The Horrors ou The Pains of Being Pure at Heart.

Gonçalo Sá

Excertos da actuação:

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