"As razões de Bento XVI": conhecer o Papa

29 de Abril de 2010, 12:40

Quem é o Papa que visita Portugal em Maio? Como chegou a Papa e que marca pode deixar na Igreja Católica? A jornalista Aura Miguel tenta dar resposta a estas questões no novo livro “As razões de Bento XVI".

Aura Miguel, jornalista da Rádio Renascença e vaticanista (tem acreditação permanente na sala de imprensa da Santa Sé, no Vaticano) quer dar a conhecer uma figura que, passados cinco anos da sua eleição como Papa, ainda é pouco compreendida.

Da eleição como chefe da Igreja Católica, à mensagem que quer deixar a uma Europa descrente, Aura Miguel revela o perfil e pensamento de Joseph Ratzinger, um homem que sonhava em reformar-se e passar os dias a estudar teologia . Até aos 78 anos ter sido eleito papa.

O livro é lançado hoje com apresentação marcada para as 18.30, na Feira do Livro de Lisboa, por Marcelo Rebelo de Sousa. Amanhã o livro será apresentado no Porto pelo bispo D. Manuel Clemente.

O SAPO publica dois excertos do livro "As razões de Bento XVI".

A ELEIÇÃO

O voto n.º77

Quando Bento XVI foi eleito tinha 78 anos de idade. Por duas vezes tinha tentado reformar-se e voltar para a sua casa na Baviera, onde vive o irmão, mas João Paulo II nunca aceitou os seus pedidos. O sonho de Ratzinger era acabar os dias a estudar teologia e, nos intervalos, tocar piano. Afinal, nada correu como planeado.

O conclave que elegeu Joseph Ratzinger foi dos mais rápidos.

(página 15)

A rapidez da escolha desmentiu os prognósticos de muitos sectores - incluindo meios eclesiásticos e comunicação social - de que havia uma forte resistência à eleição de Ratzinger. Aconteceu o contrário: os cardeais deram ao mundo um sinal de união ao elegerem tão depressa este Papa.

Sobre o que se passou dentro do conclave pouco se sabe, por causa do juramento que os cardeais são obrigados a fazer para manter segredo, sob pena de excomunhão. Mas alguns cardeais acabam sempre por revelar aspectos marginais à eleição.

Os lugares do conclave, na Capela Sistina, estavam distribuídos por duas filas de cada lado do altar, paralelas às paredes laterais. O primeiro lugar à esquerda, bem próximo do Juízo Final de Miguel Ângelo, era o do cardeal decano, Joseph Ratzinger. Segundo vozes «bem informadas», o número de votos alcançado por Ratzinger terá superado os de Karol Wojtyla (eleito com 99 votos no conclave de 1978). Mas, naquela tarde do dia 19 de Abril de 2005, Ratzinger só precisava de 77 votos para ser eleito. Por isso, enquanto se procedia à recontagem dos votos resultantes da quarta votação, os eleitores não esperaram que se chegasse ao fim, como testemunhou o cardeal espanhol Julián Herranz: «Quando chegámos ao voto 77, pusemo-nos de pé a aplaudir. Era uma forma de agradecer a Deus, de louvar o Espírito Santo que nos tinha levado à quantidade necessária, já na quarta votação. Nesse momento vi o cardeal Ratzinger como sempre o vi: um homem de uma grande paz e serenidade interior.»

Os cardeais permaneceram todos de pé, a aplaudir, excepto Ratzinger, como relatou o cardeal inglês Murphy O'Connor: «Estávamos de pé, mas ele continuava sentado, com a cabeça baixa. Estava a rezar.» Então, o cardeal Angelo Sodano, acompanhado pelo cardeal secretário do conclave e pelo cardeal camerlengo formularam-lhe a pergunta crucial: eminentíssimo senhor cardeal, aceita a eleição para Sumo Pontífice, canonicamente realizada?

«Ratzinger aceitou com um sim muito claro, forte e decidido. Nesse momento, sentia se na capela todo o peso que estava prestes a cair nos seus ombros. Foi um sim sem reservas, creio que estava feliz ao dá-lo, por aceitar este peso até à morte», contou o cardeal Christoph Schönborn, de Viena.

(página 15)

PREOCUPAÇÕES

A ditadura do relativismo

No alvor deste pontificado terá estado a preocupação dos cardeais com o avanço do relativismo e a escolha de alguém que conhecesse a fundo estes problemas. Analistas consideram que, em 1978, com a eleição de Karol Wojtyla, «o Conclave reagiu às ditaduras comunistas com a mensagem de que não há dignidade do homem sem liberdade», enquanto que «o Conclave de 2005 emitiu sinais de alarme contra a ditadura do relativismo: não há liberdade sem verdade».

Com efeito, a última homilia de Ratzinger antes de ser eleito Papa é uma chave de leitura fundamental para perceber este pontificado. Foi ele que, na qualidade de decano do colégio cardinalício, antes de entrarem para o conclave que o viria a eleger, presidiu à missa Pro Eligendo Romano Pontifici. E ficaram famosas as palavras que proferiu, quer sobre aquilo a que chamou «ditadura do relativismo», quer ao denunciar o risco de permanecermos com uma fé infantil, «em estado de menoridade».

Citando a carta de São Paulo aos Efésios - «como crianças, levadas ao sabor de todos os ventos de doutrina, pela malignidade dos homens e astúcia com que induzem ao erro» [cf. Ef.4, 14] - disse, então, o futuro Papa: «Quantos ventos de doutrina conhecemos nestes últimos decénios, quantas correntes ideológicas, quantas modas de pensar… A pequena barca do pensamento de muitos cristãos foi muitas vezes agitada por estas ondas, lançada de um extremo para o outro: do marxismo ao liberalismo, até à libertinagem, ao colectivismo radical; do ateísmo a um vago misticismo religioso; do agnosticismo ao sincretismo e por aí adiante.» E Ratzinger prosseguiu: «Ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, é, com frequência, rotulado como fundamentalismo. Enquanto o relativismo, isto é, deixar-se levar de um lado para o outro, ao sabor de todos os ventos de doutrina, surge como a única postura adequada aos tempos de hoje. Vai-se, assim, constituindo uma ditadura do relativismo que nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida apenas o próprio eu e os seus desejos.»

Nesta homilia, o cardeal Ratzinger acrescentou ainda que «adulta não é uma fé que segue as ondas da moda nem a última novidade; adulta e madura é uma fé profundamente radicada na amizade com Cristo. É esta amizade que nos abre a tudo o que é bom e nos dá o critério para discernir entre verdadeiro e falso, entre engano e verdade».

É interessante verificar como estas preocupações são agora uma constante nos ensinamentos de Bento XVI. Foi o que aconteceu, por exemplo, na homilia de encerramento do Ano Paulino: «Não podemos mais permanecer como meninos inconstantes, levados por qualquer vento de doutrina. [?] A expressão "fé adulta", nas últimas décadas, tornou-se um slogan conhecido. Ouvimo-lo com frequência como sinónimo de quem já não dá ouvidos à Igreja nem aos seus Pastores, mas decide escolher aquilo em que quer ou não acreditar; portanto, uma fé ad hoc. E esta "fé adulta" é apresentada como "coragem" de se expressar contra o Magistério da Igreja. Ora, na realidade, para isto não é preciso ter coragem, porque se pode ter sempre a certeza de receber elogios públicos. Pelo contrário, coragem é aderir à fé da Igreja, apesar de ela contrariar o "esquema" do mundo contemporâneo. [?] Assim, faz parte da fé adulta, por exemplo, empenhar se pela inviolabilidade da vida humana desde o primeiro momento, opondo-se de forma radical ao princípio da violência, precisamente também na defesa das criaturas humanas mais indefesas. Faz parte da fé adulta reconhecer o matrimónio entre um homem e uma mulher para toda a vida, como ordenamento do Criador, restabelecido novamente por Cristo. A fé adulta não se deixa arrastar para aqui e para ali por qualquer corrente. Ela opõe-se aos ventos da moda. Sabe que estes ventos não constituem o sopro do Espírito Santo.» (página 23)

RATZINGER EM PESSOA

Em regime de mosteiro

Bento XVI vive quase em regime de mosteiro. Ao contrário do Papa polaco, que gostava de receber amigos em casa (que depois, quando saíam, contavam imensas coisas…), Ratzinger é discretíssimo e pouco ou nada se sabe dele.

É conhecida a sua extraordinária pontualidade. Nos tempos em que era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, saía do seu apartamento situado na Praça Città Leonina - junto à porta Sant'Ana - e atravessava a pé a Praça de São Pedro até chegar ao seu gabinete, no antigo Palácio do Santo Ofício. Os vendedores e empregados dos quiosques da zona podiam acertar os seus relógios: o cardeal passava sempre à mesma hora; nunca falhava.

(página 85)

Simplicidade

Quanto às outras facetas de Ratzinger, os seus amigos dizem que «é muito raro perder a paciência»; que é um homem muito simples, modesto, de grande paz e serenidade interior; e que, há uns anos atrás, se ofereceu para doar os seus órgãos para transplante.

É interessante o modo como Ratzinger se define a si próprio: «Sou um cristão normal. Mas, num sentido mais lato, a fé ilumina. Ligada ao pensamento, julga-se que - para citar Heidegger - se entrevê a clareira a partir das diversas encruzilhadas da vida.»

(página 87)

 

@Vera Moutinho e Frederico Batista

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