"Quantas vezes o que desapareceu não pode ser substituído"

Richard Zimler, escritor

Nasceu em 1956 em Nova Iorque

Vive em Portugal desde 1990 e naturalizou-se português em 2002

O que escrevi no meu romance “À Procura de Sana” sobre como é que soube dos ataques no World Trade Center foi exactamente como aconteceu:

Ia a passar na Rua Júlio Dinis, no Porto, quando vi uma multidão num café especada diante de um televisor a um canto. Imaginei que devia ser um desafio de futebol. Mas pela montra consegui ver o topo das Twin Towers de Nova Iorque envoltas em chamas e lançando para o céu nuvens densas de um fumo cinzento. Precipitei-me para o interior. Parecia ficção científica – absolutamente impossível. Então umas das torres desabou. Tive a impressão de que todas as pessoas à minha volta se afastavam de mim e se diluíam. A minha experiência dizia-me que estava prestes a desmaiar. Sentei-me com a cabeça nos joelhos. Não queria chorar. Mas chorei. Também não queria que me vissem, e por isso mantive-me com a cabeça baixa.

Quando senti a tontura diminuir, sentei-me e bebi um copo de água. Estava gelado. Um homem na mesa ao lado reconheceu-me e sorriu. Reconheci-o também – Germano Silva. Era um jornalista e historiador que uma vez me entrevistara. Veio ter comigo e sentou-se à minha mesa. Falámos uns minutos, pois ele lembrou-se de que eu era de Nova Iorque, mas não consigo lembrar-me de uma única palavra da nossa conversa. Quando consegui levantar-me, precipitei-me para chamar um táxi e fui ao gabinete de Alex (Alexandre Quintanilha). Estava numa reunião, mas saiu para me dar um abraço. Lembro-me do cheiro dele – o cheiro de todos os anos que passámos juntos. Depois sentei-me à secretária dele. Surpreendentemente, consegui ligar para a minha mãe de imediato. Estava à espera de a encontrar histérica, mas estava calma, com uma incredulidade estupefacta.

Passei os dias que se seguiram a trocar e-mails com amigos do liceu e da universidade, com o meu agente literário e editores, com vizinhos da minha mãe, e com toda a gente de quem me lembrava em Nova Iorque. Felizmente, todos os meus conhecidos estavam bem. Passei a maior parte do tempo diante da televisão a ver a CNN e a Sky News.

Há três meses visitei Nova Iorque e fiquei num hotel mesmo ao lado do local do World Trade Center. Ver a escala gigantesca da construção que ainda decorre, com o monumento principal e as torres de escritórios ainda longe de estarem terminados, fez-me pensar no tempo que os seres humanos levam a reconstruir o que foi destruído. E quantas vezes o que desapareceu não pode ser substituído.

Os Americanos mudaram assim tanto com os ataques (como quase toda a gente previu nos meses depois do 11 de setembro)? Sim e não. Obviamente, a segurança nos aeroportos e noutros espaços públicos aumentou dramaticamente, e pelo menos em Nova Iorque muitos habitantes sentem um respeito renovado por aquelas pessoas – bombeiros, em particular – que trabalham arduamente todos os dias para proteger as nossas vidas. Mas será que os Americanos mostram mais solidariedade e compaixão hoje, dez anos depois dos ataques? Dão sinais de mais respeito pela liberdade e pela democracia?

Infelizmente, a minha resposta é não. Vejam o caso do Tea Party. Esta poderosa e altamente ruidosa fação do Partido Republicano expõe abertamente causas xenófobas e – na minha opinião – racistas. Querem negar às mulheres o direito ao aborto e bloquear o financiamento para o planeamento familiar. A retórica deles está cheia de desprezo pelos imigrantes e pelos não Cristãos, e a sua política relativamente aos homossexuais e lésbicas é simplesmente nojenta. Eles e os amigos querem alargar o terrível fosso entre ricos e pobres continuando a oferecer aos super-ricos incentivos fiscais de uma generosidade embaraçosa. Querem arrasar com a proteção ambiental e retirar a teoria da evolução de Darwin dos manuais escolares. Contrariamente ao que está na Constituição Americana, insistem em mais religião (na vertente fundamentalista Cristã, claro) nas escolas. E eles e os seus seguidores usaram o 11/9 para reduzir os direitos fundamentais dos cidadãos americanos através do Ato Patriótico e de outras medidas.

Além disso, as táticas da direita na América são mais agora mais sujas e repugnantes do que nunca. Durante a campanha de Barack Obama para aprovar o programa nacional de saúde, os neo-conservadores e novos-Cristãos referiram-se abertamente a ele como um nazi e um comunista (gostava que alguém me dissesse como é que ele podia ser as duas coisas ao mesmo tempo!), e compararam-no a Adolf Hitler. Os racistas dentro e fora do Tea Party também forçaram Obama a tornar pública a certidão de nascimento. Infelizmente, este tipo de pessoas tem o seu próprio canal de televisão onde podem jorrar essa retórica cheia de ódio 24 horas por dia: Fox News.

E mais, não esqueçamos que o maior desastre da economia desde a Grande Depressão ocorreu depois do 11/9 e os banqueiros e gestores de investimentos gananciosos da América do Mundo inteiro continuam a ganahr salários de milhões de dólares e a oferecer a si próprios grandes prémios (e a rirem-se de nós!). Este menosprezo premeditado pela maioria dos Americanos, Europeus, Asiáticos e Africanos - e o seu desdém por dezenas de milhões de pessoas de uma classe média que trabalha arduamente e que perdeu empregos e casas desde o início da atual crise económica – soa a solidariedade e compaixão? Os super-ricos da América – pessoas como Donald Trump e Warren Buffet – podem fazer muitos donativos para caridade mas há alguém que acredite realmente que eles querem mudar a forma como o sistema politico e económico mundial condena mil milhões de pessoas a passar fome todos os dias? Alguém acredita que o 11/9 os estimulou a fazer do desenvolvimento do Terceiro Mundo uma prioridade?

E a Guerra no Iraque? Será de facto um exemplo de como os Americanos valorizam a democracia e a liberdade? Ou é um exemplo de como os EUA estão dispostos a ir muito longe para controlar países em que têm um interesse económico abusivo?

Claro que aconteceram algumas coisas boas na América desde o 11/9. Desde logo, Barack Obama foi eleito presidente depois de oito anos de má gestão abominável de George W. Bush e dos seus conselheiros, e fez o que pôde para trazer alguma inteligência e sensibilidade às políticas externas e internas Americanas. Ainda assim, fazendo um balanço, não posso dizer que a América seja um lugar mais simpático e mais solidário para viver do que antes do 11/9. Pelo contrario, acho que se está a afastar cada vez mais dos valores democráticos dos fundadores dos EUA. E se Barack Obama não for reeleito no próximo ano – se os Republicanos chegarem à Casa Branca – aí tenho tenho realmente medo do destino da América e do mundo.

Richard Zimler