"Chegámos a um fim de ciclo"

Fernando Nobre, 59 anos

Presidente da AMI

Há 10 anos estava em Nova Iorque para participar, como convidado, na conferência anual das Nações Unidas com a Sociedade Civil (este ano, esta conferência decorre em Bona, onde estarei). Foi assim que tive a infelicidade de assistir em directo, na rua, a uns 500 metros

do actual ground zero, ao desmoronamento total das torres gémeas do World Trade Centre. Foi um momento de terror e de dor perfeitamente audível e perceptível junto das pessoas que, atónitas e incrédulas como eu, assistiam, da 5ª Avenida, ao inacreditável.

Como escrevi então, num texto apenas publicado anos mais tarde, considero que a Humanidade perdeu uma ocasião de ouro para transformar essa tragédia e manifestação de ódio e loucura totais, como tantas outras que têm enxameado o caminho da nossa desumanidade, numa oportunidade única para a construção de um novo paradigma de sociedade humana global mais justa, menos insegura, mais desenvolvida. A comunidade internacional já tinha desperdiçado, com o desabar do muro de Berlim, em 1989, a oportunidade de criação de uma nova ordem mundial.

O novo mundo sonhado por milhares de milhões de pessoas. A mesma comunidade internacional voltou a desbaratar a oportunidade da tragédia do 11 de Setembro de 2001, como mais tarde desprezou a crise financeira de 2008, para estruturar enfim relações globais transcontinentais, transreligiosas e transculturais, mais éticas, menos iníquas, menos desiguais.

Passados 10 anos sobre o fatídico dia 11 de Setembro, chegámos a um fim de ciclo, com todos os povos conscientes e temerosos de um futuro incerto, sem rumo e que, garantidamente, será flagelado por mais confrontos, mais pobreza, menos liberdade e mais tragédias climáticas.

Termos sabido interpretar e reagir correctamente à tragédia do 11 de Setembro poderia ter-nos servido de detonador para o surgimento de um Mundo menos odioso.

Saberemos nós interpretar este fim de ciclo e adoptar novos paradigmas pessoais, colectivos e globais a fim de evitar ainda mais conflituosidade, guerras e miséria?

Tenho sérias dúvidas. Oxalá me engane. Só o futuro dirá, ajuizando da nossa inteligência enquanto espécie racional ou da nossa irresponsabilidade desumanizada.

Fernando Nobre

Foto: Mário Cruz/LUSA