"Foi um trabalho muito doloroso, excruciante e difícil"

Arthur Sanhudo

Murtosa, 1952

Estados Unidos desde 1964

Reformado da Divisão de Bombeiros de Newark, New Jersey, após 26 anos de serviço como bombeiro e capitão.

Há 10 anos, estava em casa quando o primeiro avião embateu contra o World Trade Center. O meu colega de trabalho telefonou-me e disse-me para ligar a televisão. No inicio pensei que fosse um acidente. Minutos depois, quando vi o segundo avião chocar contra as torres, percebi que estávamos a ser atacados.

Senti-me aterrorizado. Fui trabalhar nessa noite porque não conseguia dormir. Quando cheguei ao quartel, percebi que tínhamos perdido 343 “irmãos”. No dia seguinte, apanhei o metro e fui a Nova Iorque. Um carro da polícia esperava-me e levou-me ao Ground Zero.

Assim que cheguei, vi destroços e partes de corpos humanos. Pensei que estava num filme, mas depois percebi que era tudo muito real. Pus-me logo a trabalhar, a escavar de joelhos à procura de sobreviventes. Foi um trabalho muito doloroso, excruciante e difícil. Sentia-me infeliz quando encontrava pedaços de corpos.

Perguntava-me: como é que isto pode ter acontecido aos Estados Unidos? Trabalhei até às 17h00 desse dia e entrei ao serviço às 18h00 em Newark. Na manhã seguinte voltei ao Ground Zero e voltámos a revolver os destroços à procura de sobreviventes. Não encontrámos ninguém com vida. No terceiro dia suspenderam os nossos serviços. Apenas autorizaram o departamento de bombeiros de Nova Iorque a prosseguir com as escavações.

Nova Iorque não mudou assim muito desde o 11 de Setembro. As pessoas são resistentes e o comércio continua forte, como de costume.

Dez anos depois, reflicto e percebo algumas mudanças. A segurança nos aeroportos reforçou-se por causa do 11 de Setembro. Cada vez que olho para trás, rezo para que o que aconteceu não volte a acontecer. Perdi “irmãos”, vi corpos despedaçados, edifícios altos a colapsarem, caos, tristeza, suor, lágrimas e medo. Sim, 10 anos depois, ainda me sinto triste e às vezes choro. Mas ser um português forte e orgulhoso ajudou-me a ultrapassar essas dificuldades. Recuperei bem de tudo isto, acho eu.

Arthur Sanhudo