"Pensei que o Mundo tinha acabado. Ou pelo menos Manhattan"

Mario Tama, 40 anos

Fotojornalista da Getty Images desde 2001

Mudei-me para Nova Iorque dois meses antes do 11 de setembro. Vivia no Lower East Side e recebi uma chamada de uma das minhas editoras pouco tempo depois de ela ter visto o primeiro avião embater nas torres. Estava histérica.

Disse-me para ir até ao World Trade Center e eu peguei no meu material e corri porta fora, ainda sem acreditar que seria algo mais que um pequeno avião que tinha embatido contra o edifício. Assim que virei a esquina e olhei para as torres vi um buraco massivo e irregular num dos lados da Torre norte e pensei imediatamente: “Isto é Guerra”.

Corri até ao local pelas estreitas e ventosas ruas de Chinatown, e foi aí que ouvi a segunda explosão. Não a consegui ver porque estava bloqueado pelos edifícios, mas via as pessoas ao fundo do quarteirão que estavam a observar tudo aquilo e que, coletivamente, saltaram para trás naquilo que foi uma espécie de momento sincronizado de terror.

Consegui finalmente chegar perto e tentei entrar na Torre sul. Estava mais ou menos a dois quarteirões e meio da Torre quando ouvi um estrondo. Olhei para cima e por instantes fiquei ali a ver com total descrença o topo da torre a colapsar. Nesse momento passei de ser um observador, um fotógrafo, uma testemunha, para ser apenas mais um nova-iorquino a correr pela sua vida.

Corri pela Greenwich Street enquanto o rugido do tsunami de destroços nos perseguia rua abaixo. Soava a 1000 comboios a baterem uns contra os outros.

Uma das minhas máquinas fotográficas caiu no meio do caos. Corri o mais rápido que consegui até que a nuvem do tornado me apanhou e eu tive de me abrigar. O pó envolveu-me, a mim e a outros dois homens que também se esconderam ali, e foi a escuridão total. Não conseguia ver dois palmos à minha frente e de repente estava tudo silencioso. Nada de sirenes. Nada de alarmes. Só escuridão. Pensei que o Mundo tinha acabado. Ou pelo menos Manhattan.

Não tinha a certeza se estava vivo ou morto. Eu e os outros dois homens começámos a rezar, dois de nós em inglês e o outro em espanhol. Depois daquilo que pareceu uma eternidade, o pó começou finalmente a levantar.

As pessoas começaram a mover-se mas eu não conseguia vê-las na mesma, só ouvia as vozes, como se fossem fantasmas. Consegui perceber que a cidade estava intacta, estávamos vivos.

Levantei as minhas máquinas fotográficas do pó e comecei a tirar fotografias outra vez. Isto é o que os fotógrafos fazem, usamos as máquinas para ingerir e processar o Mundo à nossa volta. Era a minha única defesa, o meu único instinto, a única coisa que eu podia fazer.

Mario Tama

Foto: Mario Tama/Getty Images