O Tabu das Imagens

O que é que vimos do 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque?

O direto planetário através das televisões irrompeu na ponta final dos telejornais da hora de almoço em Portugal. Começou alguns minutos antes das 14h da tarde (9 da manhã em Nova Iorque), com as imagens, captadas de longe, de uma emergência na torre norte do World Trade Center.

As imagens “live” estavam fixadas na bola de chamas e na coluna de fumo que se apoderava do topo daquela torre do WTC quando, subitamente, sempre em direto, vimos ainda mais inesperada acção: um avião de passageiros a voar demasiado baixo e a precipitar-se a alta velocidade sobre a outra das duas torres.

Através do ecrã pudemos então perceber sem margem para equívocos que estávamos perante um cenário de apocalipse, com alcance inimaginável e horrível perda de vidas. Um gigantesco ataque terrorista.

Vimos Nova Iorque em catástrofe e a entrar em estado de guerra. Sabíamos, era óbvio, que o que estava a acontecer implicava consequências horripilantes. Diziam-nos que haveria 40 mil a 50 mil pessoas dentro das torres e que só uma pequena parte teria conseguido escapar. Sabíamos que havia corpos calcinados, decepados, destroçados.

Agora, dez anos depois, neste Agosto de 2011, a reportagem da guerra na Líbia mostrou-nos imagens nauseabundas de corpos calcinados num armazém tornado masmorra letal.

Em Nova Iorque, em 2001, foi diferente.

Juntaram-se ali hordas de repórteres, profissionais e amadores, com centenas ou milhares de câmaras.

O ataque a Nova Iorque em 11 de Setembro de 2001 é, seguramente, o acontecimento mais fotografado e filmado na história do mundo. Os repórteres captaram milhares de imagens de destroços humanos. No entanto, não vimos essas imagens. Prevaleceu o consenso de que se podia mostrar a brutal violência dos factos sem usar imagens macabras de agonia e mutilação humana.

O francês Clément Chéroux, explorador acutilante de imagens, conservador da área de fotografia no Centre Pompidou, em Paris, analisou metodicamente as imagens seleccionadas por 400 jornais, dos EUA, europeus e árabes, publicados no dia seguinte ao do ataque.

O acontecimento mais fotografado aparece-nos com muito baixa diversidade de imagens. Chéroux, no estudo incluído no livro Diplopie conclui: “É uma profusão de fotografias diferentes mas, as publicadas, [quase] todas com o sofrimento dos edifícios a sobrepor-se ao sofrimento das pessoas.”

Imagens macabras de restos humanos foram captadas. Existem.

Uma exposição, “Here is New York: a Democracy of Phtotographs”, mostrou muitas dessas fotografias estremecedoras, em Outubro de 2001, numa galeria no Soho nova-iorquino. Uma delas é “The hand”, perturbadora fotografia captada por Todd Maisel, que mostra, tombada sobre o asfalto da Liberty Street, uma mão arrancada de um braço, da qual saltam tiras de carne e um pedaço de osso quebrado.

É uma fotografia que chegou a ser publicada no dia seguinte, 12 de Setembro de 2001, pelo New York Daily News, desencadeando escândalo, com críticas furiosas ao jornal por ter traído o compromisso não escrito de recusar a publicação de imagens susceptíveis de chocar ainda mais a nação traumatizada.

Há o caso “The falling man”: a queda, captada por Richard Drew, de uma das tantas pessoas (os repórteres do New York Times contaram 50 “jumpers”; o USA Today, cruzando várias fontes, calcula que foram 200) que optaram por saltar dos arranha-céus. Saltaram para fugir ao fumo e ao fogo, e ao colapso das estruturas do edifício.

O New York Times publicou esta fotografia na página 7 da edição de 12 de Julho. O Denver Post e o Star-Telegram de Forth Worth também a publicaram, mas receberam um vendaval de críticas por, ao publicá-la, estarem a explorar a morte de um homem, a despir-lhe a dignidade, a invadir-lhe a privacidade com a intrusão no momento de agonia.

A resistência à imagem e às imagens foi imediata.

Muitas vozes colocaram a não publicação de imagens chocantes como uma questão de decência. Erik Sorensen, presidente da MSNBC, assumiu, em declaração publicada pelo New York Times de 13 de Setembro de 2001, que “escolheu não mostrar demasiado”.

Vários jornalistas e produtores daquela rede de televisão defenderam que tudo deveria ser mostrado, independentemente do seu impacto, por ser missão do jornalismo revelar tudo o que contribui para o entendimento dos factos. Mas prevaleceu a recusa de imagens chocantes, adoptada pela generalidade dos media nos EUA.

Há quem denuncie “censura em nome do patriotismo americano”. Maisel interveio na polémica sobre a imagem da mão decepada com esta resposta: “Não querem que se veja os feridos e os mortos por terem medo do reviver dos fantasmas do Vietname”.

Também há quem denuncie a concentração dos pólos de difusão de imagens: as pequenas agências desapareceram ou passaram a estar nas mãos de grandes grupos financeiros, o que tem levado à uniformização e repetição das imagens visualizadas.

É por tudo isto que muitas imagens do 11 de Setembro de 2001 ficaram tabu nos media.